“Coringa: Foi assim que aconteceu comigo, sabe... Bem, eu não tenho certeza absoluta... Algumas vezes eu lembro de um jeito. Outras vezes, de outro...
Coringa: Se vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha!”
Alan Moore, “A Piada Mortal”
Se, como afirma Jeudy (1998), o patrimônio é um “trabalho de luto” (travail de deuil), a representação do Monroe sob a forma de hiperdocumento tem o objetivo de elaborar este luto, para que os usuários, em especial os que moram no Rio de Janeiro, conheçam o significado do vazio deixado pelo edifício e os processos da sua demolição. Com isso, espera-se, terão uma compreensão maior dos processos de edificação da cidade, e, por conseguinte, maior sensibilidade para interferir em seu destino.
Esse trabalho se propôs a estudar o conceito de patrimônio urbano, entendendo que o significado do patrimônio e das edificações que ele abrange está subordinado à sociedade em que se insere. Defende ainda que a lista de patrimônios que a cidade quer para si depende, em muito, das histórias conhecidas a seu respeito. E que essas histórias, de múltiplas vozes e abordagens, podem ser melhor mostradas através de hiperdocumentos.
Assim, buscamos analisar um edifício com várias características que em princípio o fariam ser classificado como patrimônio, e, no entanto, foi demolido: o Palácio Monroe. A seguir, propusemos a elaboração de um hiperdocumento sobre esta “exceção” nada excepcional à regra – no sentido que está longe de ser o único reconhecido monumento que desapareceu no Brasil –, para colaborar com o debate sobre aquilo que desejamos preservar. Saber preservar é, também, saber demolir.
O patrimônio urbano, como já dissemos, é composto pelos bens herdados pela cidade, ou o conjunto de bens de valor para a população de uma cidade. Entendemos que cabe ao urbanista zelar pelos valores urbanos, dentre os quais os bens culturais. Os habitantes das cidades – e também os visitantes – fazem de algumas edificações, principalmente públicas, alegorias, incorporações de idéias abstratas sobre essas cidades, quando não uma representação da cidade mesma. Esses valores e idéias vão se alterando conforme os valores culturais e o tempo, como também mudam os edifícios escolhidos para simbolizá-las. Esse processo é parte dos atributos da cidade, ser meio de comunicação entre seus habitantes, comunicação de poder, riqueza, segurança, medo, ou a mensagem que mais for preciso transmitir. Mas é sempre uma escolha, e portanto também é da ordem da política essa comunicação.
Trabalhamos a partir dos valores de patrimônio assinalados por Riegl (1984), já que os entendemos como sensíveis a essas alterações. Por exemplo, o valor de antigüidade, nos dias de hoje, está associado às construções pré-modernistas, diferentemente do que ocorria em 1903 – e, no entanto, já algumas pessoas consideram também construções modernistas como antigas. O que não se altera, com relação ao valor, é a marca da passagem do tempo e a capacidade de evocar outro período. Similarmente, o valor histórico-documental é adaptado conforme a necessidade, ou melhor, a versão da história disponível. Além disso, através dele se justificaram as primeiras manifestações pela conservação do patrimônio, ou seja, pela conservação de objetos de estudo. O valor de rememoração intencional, por intencional, é sempre fruto de negociações que se alteram em cada período sobre as mensagens associadas ao edifício. Mesmo o valor de uso é influenciado por fatores subjetivos, por exemplo, transformando zonas portuárias em pólos culturais e comerciais, mudanças impensáveis em outros momentos históricos. Dentro do valor estético, subjetivo por natureza, mesmo o valor de novidade – o aspecto integral da obra – altera-se conforme o entendimento do que seja integral: por exemplo, a Fundição Progresso, na Lapa, no Rio de Janeiro, precisou de reformas para atrair um público que permita sua integração plena na dinâmica da cidade.
A questão da autenticidade, para onde nossa sociedade parece ter deslocado suas preocupações com o sagrado, é premente mesmo num mundo dito de aparências. Por maior gosto que se tenha pelos parques temáticos e pela cenografia, ninguém parece disposto a consumir desavisadamente uma coisa pela outra. Há, entretanto, margem para negociação, e muitos consentem em usufruir plenamente de uma reconstrução se a sentirem como correta ou exata – um grau de satisfação absolutamente subjetivo. Mas a autenticidade de um edifício não o tira do curso do tempo e da vida cotidiana, e ele sofre os efeitos de ambos, e continuará autêntico mesmo que diferente do original.
Enfim, a atualização dos valores do patrimônio tem uma forte relação com a noção da identidade de uma comunidade, a construção de uma narrativa comum a seus membros. É o patrimônio urbano que ilustra e permite vivenciar essa narrativa, para o habitante da cidade. A supressão, revalorização ou mesmo a construção deliberada de um edifício desse conjunto revisa toda a narrativa, e refunda essa identidade.
Vimos também como o conceito de hiperdocumentos, narrativas em rede, pode ser aplicado ao próprio patrimônio, cuja inscrição em várias narrativas contribui para sua valorização. Aprofundamos o conhecimento sobre hiperdocumentos eletrônicos, reconhecendo algumas especializações de estruturas narrativas que poderão servir para orientar futuros trabalhos em computação. Sabemos que os hiperdocumentos não são uma novidade, quando considerados em termos de organização da informação, mas que sua encarnação eletrônica traz mudanças conceituais importantes, concentrando os deslocamentos de um para outro tema ou abordagem no mesmo ponto do espaço, estimulando o leitor a ver partes muito distintas como um todo coeso.
Já dissemos que os edifícios do patrimônio urbano, por sua múltipla inserção cultural – objetos de arte, documentos da política urbana, representantes da história da arquitetura –, necessitam de múltiplas abordagens para a compreensão de seu significado como patrimônio – e também para efeito de comparação entre si. A utilização de narrativas digitais também é útil por induzir à reinterpretação do patrimônio. São os hiperdocumentos a única forma de representar múltiplas abordagens, ou de induzir à reinterpretação? Seguramente que não. No entanto, sem dúvida, estão entre as mais apropriadas, por estimularem que essas abordagens sejam compreendidas como partes complementares, interligadas, de um todo.
O que buscamos com esse trabalho foi consolidar uma metodologia de elaboração de hiperdocumentos para o patrimônio que ajudasse a valorizá-lo. Para tanto, buscamos primeiro entender de que ordem são os valores atribuídos ao patrimônio. Em seguida, buscamos analisar os hiperdocumentos sobre o tema, depurando algumas de suas estruturas narrativas. Com esse aprofundamento, foi possível estruturar um hiperdocumento para o Palácio Monroe, ele próprio um caso discutível de patrimônio, cuja função narrativa para a cidade do Rio de Janeiro ainda demanda esclarecimentos. E aí reside a importância de representações adicionais desse edifício, uma vez que o próprio já foi demolido, mas sua presença persiste de várias formas entre os cariocas.
Em busca da resposta para o que leva um edifício a ser considerado como patrimônio, examinamos diferentes valores de patrimônio que permitem entender a diversidade de edificações com essa denominação – e delinear políticas de preservação específicas, de acordo com o que o edifício representa. Por outro lado, a avaliação dos valores de um patrimônio evita uma classificação rígida, levando em conta a complexidade e nuances das conexões da edificação com a comunidade, e permite absorver as mudanças que o tempo traz a toda sociedade.
E que valores são postos em evidência pelo Monroe, de modo a justificar, se não a sua preservação, ao menos a sua rememoração (e sua eventual reconstrução)? Em primeiro lugar, a celebração da arte e da arquitetura nacionais, e de um de seus arquitetos, o coronel Souza Aguiar. Já são idos os tempos combativos da arquitetura modernista, nos quais era necessário que os herdeiros das tradições ecléticas as enfrentassem titanicamente – ou edipianamente –, e se sublevassem para construir uma expressão própria. Hoje, após um período em que os preceitos modernistas também já foram celebrados e questionados pelas gerações que os seguiram, podem acomodar-se ao lado do ecletismo na história e ambos servirem de guias para o porvir.
Também a inserção urbana do Monroe deve ser considerada. O edifício é um símbolo de uma estratégia bem definida para a cidade do Rio de Janeiro, incluindo a mudança de imagem da cidade, da qual a Avenida Central é o maior exemplo, e o Monroe, um de seus primeiros componentes planejados: uma estratégia que poderíamos chamar de inserção na modernidade.
Mais do que isso, o edifício tornou-se também símbolo da emergente República, junto com outros equipamentos urbanos então instalados no Rio de Janeiro. Seu uso como Senado, o mais duradouro, foi tão marcante que parece ter evitado que o “Senadinho” fosse utilizado para outros fins, após a construção de Brasília: poucos se lembram dele como um edifício do Exército. Por outro lado, a ligação com essa mesma República dá interessantes pistas quanto à sua demolição, em lugar da cessão do edifício para outros fins, ou seja: nova estratégia deliberada de reposicionamento de imagem, dessa vez para minimizar o papel do Rio de Janeiro como Capital Federal de outros tempos, mas que ainda entrava em conflito com Brasília.
A demolição do edifício, em 1976, nos remete ás responsabilidades e escolhas relacionadas ao patrimônio – e, em ultima análise, ao projeto político da sociedade. É um estado de escolhas permanente, no qual a cada momento decidimos o que deve ser preservado e o que não nos diz tanto assim: se consideramos que determinada demolição não corresponde a esse projeto, ou não compreendemos o projeto, ou o sistema de representatividade política é imperfeito – assim funciona a democracia. Mas manter as duas perspectivas em funcionamento é o que permite corrigir a nós próprios, ao projeto e à democracia. No contexto de revalorização da Cinelândia, espaço urbano na área central do Rio de Janeiro, onde o Palácio Monroe se localizava, e esse é um projeto de nossa sociedade e de nosso tempo, é sempre bem vindo o aumento de informação sobre os edifícios que a compõem e compuseram.
Em se tratando das prescrições de preservação relacionadas ao Palácio Monroe, vimos que a reconstrução não traria o edifício de volta na maior parte dos seus aspectos, ou seja, não restauraria seus valores, mesmo utilizando a estrutura metálica original e localizando suas partes vendidas a terceiros. Na verdade, seria um feito de nosso tempo, um novo monumento, celebrando nossa capacidade de reedificar e representando o desejo de corrigir o passado – além de proporcionar um fechamento mais pregnante que o atual, que conta apenas com o Obelisco, à perspectiva da Avenida Rio Branco.
Note-se que, conquanto mesmo a Prefeitura tenha cogitado a reconstrução, o uso que seria dado ao prédio foi considerado uma questão secundária. Também não foi aventada a reconstrução do Palácio Monroe em outro lugar – não seria inédito para ele que não seu local “original” na Cinelândia. Essas duas observações apenas evidenciam sua ligação formal e morfológica do edifício com o seu entorno. Mostram a importância da vivência do espaço como experiência única e insubstituível. Argumentamos, por outro lado, que os hiperdocumentos, com as demais formas de narrativa, complementam a percepção desse espaço. De outra forma: hiperdocumentos são narrativas, não o fato em si; não o substituem, mas mantêm certa independência em relação a ele, permitindo seu conhecimento mesmo à distância.
Os valores de patrimônio que estariam associados ao Palácio Monroe reconstruído justificam a mobilização de recursos requerida para a reconstrução? Neste estudo, nos concentramos na primeira parte dessa questão, ou seja, quais os valores de patrimônio associados ao Palácio Monroe. Quanto e quais recursos seriam mobilizados, e a própria confrontação com os valores de patrimônio, para efetivamente decidir a questão, demandaria análises de custos e uma discussão entre os diversos agentes da sociedade. Pois, ao fim e ao cabo, tratar-se-á de questão de vontade, para a qual só podemos contribuir, como acadêmicos, clarificando as razões e fortalecendo as argumentações. Os hiperdocumentos podem contribuir para subsidiar uma decisão dessa natureza precisamente pela construção e difusão de conhecimento a respeito do edifício.
Na verdade, notamos que a não autenticidade de uma eventual reconstrução é o que mais preocupa as pessoas. Parece tratar-se, no entanto, de uma pista falsa. É óbvio que uma reconstrução, por acurada que fosse, não seria o mesmo Palácio Monroe que serviu de Senado. Mas o Palácio Monroe que serviu de Senado não era aquele que estava na abertura da Avenida Central. Nem o da Exposição de 22. Nem o de 1904. A preocupação deveria ser com o que ele representou; e com o que gostaríamos que representasse hoje.
Em primeiro lugar, seus atributos estéticos principais poderiam ser recuperados, fazendo com que a experiência espacial fosse bastante satisfatória. Por outro lado, o Palácio Monroe redivivo poderia representar todos os Monroes do passado – inclusive o Monroe da demolição.
Poderia ser um símbolo de uma cidade que ajusta contas com o passado, que busca aprender com ele, e reparar seus erros. Não se trata aqui de defender a sua reconstrução, já que outras edificações poderiam ser utilizadas para simbolizar isso – mas de assegurar que ela possa ser feita dentro de uma narrativa coerente. Recuperar o Monroe em nome de uma nostalgia do Rio de Janeiro como Capital Federal pode ser sintoma de uma cidade que se recusa a olhar para frente e mudar.
Finalmente, esta dissertação proporciona, desde já, um ou dois pós-escritos: um diz respeito ao fato de que a reconstrução do Palácio Monroe, como réplica ou como rememoração, tem discretamente voltado à baila, demonstrando que o edifício ainda tem lugar na memória da cidade. O outro, mais específico, é o site sobre o Palácio Monroe, objeto de especulação deste trabalho: parece que o seu mero delineamento no terceiro capítulo, bem como a necessidade de divulgar as informações sobre o tema, geraram suficiente expectativa para justificar a produção do hiperdocumento. Ele estará disponível em http://www.fau.ufrj.br/prourb/dissertacoes/rparaizo/, e esperamos que possa ser constantemente atualizado, incrementando o conhecimento disponível a respeito do edifício e o debate sobre as nossas escolhas patrimoniais na cidade.