No primeiro capítulo, observamos que os valores principais para a definição de um patrimônio, segundo RIEGL (1984), são: antigüidade, histórico-documental, uso, artístico/estético e novidade. Acrescentamos ainda o valor de autenticidade, não totalmente explicitado nessa obra de RIEGL, mas de todo modo explicitado nas cartas patrimoniais hoje utilizadas; e o valor de representação, como uma concepção ainda mais atual e que diz respeito justamente à quantidade de informação disponível sobre o monumento e a sua presença como imagem em uma determinada sociedade. Portanto, observemos o quanto de cada valor pode ser representado pelo Monroe; e como este valor pode estar representado em um hiperdocumento.
Quanto à antigüidade, a localização do edifício em uma cidade latino-americana já nos leva a pensar a questão em termos bastante relativos: o edifício foi construído em 1904, nos EUA, e remontado no Brasil em 1906. Para uma cidade com 450 anos de fundação, o edifício testemunhou parte considerável dessa história, ainda mais com as transformações ocorridas no século vinte no centro do Rio de Janeiro. Não obstante, a percepção do valor de antigüidade requer também que o edifício traga as marcas visíveis da passagem do tempo. Essas marcas, no entanto, não podem ser tão profundas que deixem de caracterizar uma edificação como antiga e passem a denunciá-la como abandonada. O Monroe deve ter cruzado essa linha: segundo parecer sobre o aproveitamento do Monroe, de Marco Paulo Alvim, museólogo da Fundação Casa de Rui Barbosa, o edifício estava em “péssimo estado de conservação” (in AGUIAR, 1976:161). Por conta de seu estilo eclético, podemos admitir que o edifício seria capaz de evocar uma época passada, mais ainda porque se confrontando com edificações modernas no entorno.
No entanto, o edifício não está mais lá. Uma eventual reconstrução não devolveria a sua antigüidade, exceto da mesma forma que para qualquer outro edifício recém-construído: um dia de cada vez. Apesar disso, os documentos sobre o edifício sempre registrarão o seu pertencimento a um período de tempo, inclusive pelas marcas do tempo nos documentos mesmos. A ligação com um determinado período, entretanto, vale inclusive para as representações produzidas após a demolição. Na verdade, no caso destas últimas, é lícito supor que a referência ao desaparecimento torná-las-á ainda mais enfáticas quanto a este derradeiro efeito do tempo que é a desaparição. O exemplo recente mais marcante talvez seja a exposição “Memória da Destruição”, organizada pelo Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, de 14/12/2001 a 15/02/2002, que tratava justamente dos vários casos de edificações e tecidos urbanos destruídos para dar lugar ao progresso da cidade. Portanto, em se tratando dos documentos sobre o Monroe, torna-se de grande importância lidar com o vazio deixado por ele para demonstrar o seu valor de antigüidade.
Figura 1 - Valor de antigüidade nos documentos sobre o Monroe.Podemos acrescentar ainda a relação do terreno com o vizinho e também desaparecido Morro do Castelo. A demolição do Morro foi levada a cabo, alegou-se à época, por razões de salubridade, mas também pela decadência das residências que ali existiam. A finalização do arrasamento, em 1922, foi feita para criar espaço para a Exposição da Independência. Até então, o Morro já tinha sido parcialmente demolido, entre outros motivos, para dar lugar ao Museu de Belas Artes e à Biblioteca Nacional, como parte do projeto para a Avenida Central – a cidade colonial sendo literalmente arrasada pela moderna.
O mesmo surto de progresso substitutivo, que afirma o novo pela destruição do antigo, procurou justificar a demolição do Palácio para a passagem do Metrô. Em lugar do discurso higienista do Castelo, a demolição apoiou-se na lógica da abertura da vista para o Pão de Açúcar. O progresso, no entanto, engana. A região do Castelo, após a Exposição, e até a construção do edifício do Ministério da Educação, foi muito pouco urbanizada, e a área até hoje, quase toda ocupada, tem certa dificuldade de integração com o restante do Centro. No lugar do Monroe, nem o Metrô passou – antes mesmo de começar a ser demolido, já tinha sido aprovada a “curva mais cara” do projeto, com o propósito, aliás, de evitar essa demolição. Um estacionamento subterrâneo foi recentemente construído – uma utilização que chegou a ser cogitada na época, é verdade, mas que provavelmente poderia ser acomodada com o prédio ainda lá.
Do ponto de vista do hiperdocumento, o valor de antigüidade, conforme associado ao edifício, poderia ser ressaltado pela simulação do mesmo nas condições atuais da praça, levando o usuário a confrontar-se com o seu ressurgimento fantasmagórico. Aqui, o recurso da intervenção em fotografias, com a inclusão do edifício representado tanto em modelagem quanto por fotos antigas, pode simular a visão do observador, inclusive com a opção de observar o edifício em seus dois momentos principais, em 1906 e em 1925, após ser reformado.
Figura 2 - Modelagem do entorno em 1850, 1910, 1928, na malha atual e na malha atual com o Monroe (na configuração original).Outro recurso seria a simulação em modelagem tridimensional que permitisse reconstituir o entorno do edifício nos diferentes períodos de tempo. Uma matriz simples desse tipo de mundo virtual permitiria confrontar as duas principais configurações do edifício ao longo do tempo em relação à Praça – à semelhança do que foi feito com os projetos do concurso e com a evolução do projeto para o Ministério da Educação, no aplicativo do LAURD, para avaliar as diferentes hipóteses em termos de volume e morfologia. Finalmente, algo que depende de informações muito mais detalhadas, e que o levantamento de fontes até agora realizado ainda não permite vislumbrar, seria possível reconstituir o interior do edifício para permitir o passeio virtual no modelo tridimensional. O ponto principal, com relação ao hiperdocumento, é que o valor de antigüidade é evidenciado pela representação das mudanças operadas no edifício e no entorno, principalmente entre os estados original e atual.
O valor de antigüidade está relacionado também com a autenticidade do objeto. A autenticidade, em termos da representação, é a chancela que esta recebe. No caso, quem se responsabiliza editorialmente pela obra. Também está relacionada à proximidade com o real – não apenas o efeito de realidade, mas aquilo que o observador tem em mente como o que efetivamente aconteceu ou com o que deve se parecer determinada representação. Sob esse ponto de vista, uma representação abstrata pode ser mais “real” que uma figurativa, se esta representar com extrema acurácia uma situação sabidamente falsa.
Para a representação do patrimônio, em geral, podem ser aplicados alguns dos princípios postulados por BOITO (1884) para a conservação e restauração dos monumentos, devidamente adaptados: quanto mais fotorrealista que seja uma intervenção numa fotografia, melhor ela deve estar sinalizada para o leitor; nos casos de modelagem tridimensional, as partes acrescentadas sem documentação – para gerar a sensação do real – também devem estar explicitadas, seja no próprio modelo, seja fora dele; em suma, mostrar sempre até que ponto nos baseamos em documentação, e a partir de onde são hipóteses, ainda que pelo mero efeito visual. Conforme vimos, os aplicativos do LAURD freqüentemente evitam justamente o efeito do real para não confundir o usuário, fazendo uso de maquetes volumétricas com iluminação simples.
Tendo o edifício servido de sede ao Senado e à Câmara dos Deputados, foi, portanto, parte da vida política do país. Esse aspecto, ou seja, as decisões que nele tiveram lugar, não obstante, nos parece inclusive melhor documentado nos registros das duas Casas. No entanto, já demolido, sua reconstrução serviria, quando muito, para idealizar o ambiente em que foram tomadas estas decisões. No que se refere à capacidade do edifício evocar determinado período histórico, foi o primeiro edifício importante do projeto da Avenida Central, concebido para ser remontado especificamente nela: “O primeiro edifício que deveria ser construído na Praça Marechal Floriano, em lugar certo, já previamente determinado e de maior destaque, seria precisamente o Pavilhão de São Luiz, (...) ” (AGUIAR, 1976:25). Estava associado ainda aos valores da emergente República, ao projeto político do país e à “Paris tropical” de Pereira Passos.
Por outro lado, o edifício era um registro da arquitetura eclética brasileira – de relevância mundial, se considerarmos a premiação em Saint-Louis. O descaso com seu estilo é um ponto que merece ser ressaltado. Afirmamos anteriormente que o patrimônio reflete a idéia que um determinado grupo faz de si. No Brasil, a aceitação da herança eclética sempre foi complicada pela associação entre estas edificações e a política da Primeira República; e pela própria necessidade dos arquitetos modernistas – muitos dos quais fizeram parte dos quadros do SPHAN em seus primeiros tempos – de negar a arquitetura eclética para justificar a ruptura modernista. O parecer de Lucio Costa sobre o tombamento do Conjunto Arquitetônico da Avenida Rio Branco reza que o ecletismo não deveria ser considerado “parte integrante à linha legítima da evolução arquitetônica, nem mesmo como parte da história da arte, mas como um hiato nessa história” (MALHANO, 2002:161) [grifado no original].
As defesas da demolição, ancoradas na descaracterização do pavilhão por sucessivas obras ao longo dos anos, baseiam-se numa premissa correta – várias obras nele realizadas, principalmente a transformação em Senado, descaracterizaram o edifício em relação ao que era em 1906. Segundo CASTRO:
“O edifício foi inteiramente remodelado. Póde-se dizer, rigorosamente falando, que só foram aproveitadas do antigo edifício as paredes externas, tendo sido dividido o mesmo de conformidade com as necessidades do Senado. (...) A fachada foi toda modificada, sendo tirados os excessos de ornatos, apenas pintados na cor de granito.” (1926:42) [grafia original]Figura 3 - As duas configurações do Palácio Monroe.
A conclusão a favor da demolição, no entanto, não é uma decorrência lógica. Foram apontadas soluções relativamente simples para trazê-lo de volta às feições originais, retirando os vidros que vedavam as rótulas laterais e passando a casa de máquinas do elevador para o subsolo, entre outras, conforme depoimento de Durval Lobo, diretor da Divisão Técnica Especializada em Urbanismo do Clube de engenharia em 22 de fevereiro de 1975 ao Jornal do Brasil (AGUIAR, 1976:88). Essas intervenções o devolveriam ao estado de quando ganhou o Prêmio na Exposição de 1904, legítimo e vitorioso representante da história da arquitetura brasileira eclética. E que por isso mesmo deveria se impor como desconforto para um projeto modernista de arquitetura.
Concordamos com essas opiniões no sentido que, como documento da história da arquitetura, seria mais interessante que o edifício fosse restaurado à sua originalidade, pois a configuração adotada para o Senado não acrescenta muito nem do ponto de vista da história da arquitetura, nem do ponto de vista da história política. De qualquer modo, do ponto de vista do hiperdocumento, essa questão será resolvida com vantagem justamente pelo confronto entre os dois estados, mesmo que privilegiemos a configuração original como mais significativa.
Figura 4 - Maquete eletrônica do Palácio com a configuração original.A reconstrução, ainda sob a ótica da história e da documentação, poderia ser descrita como uma maquete 1:1, exceto pelo fato de que – segundo algumas versões – poderia utilizar a estrutura metálica original. Essa estrutura, remontada, poderia dizer algo mais sobre a maneira de construir desse tipo de pavilhão. Aliás, a utilização de estrutura metálica, premissa do projeto de modo a permitir a remontagem do Pavilhão no Brasil, é uma característica pouco comum na arquitetura brasileira. Em todo caso, a reconstrução do patrimônio atestaria o quanto já temos de conhecimento sobre o edifício e sobre o paradeiro atual de suas diversas partes vendidas a particulares, desde vitrais até os leões que lhe adornavam as bases, além de servir para testar algumas hipóteses relativas aos hiatos na documentação. Permitiria perceber o espaço de um determinado edifício eclético do início do século, apesar das alterações de uso que se seguiriam.
Uma alternativa seria considerar o vazio deixado como testemunho histórico de uma demolição. Para tanto, seria preciso acrescentar-lhe algum tipo de sinalização, ou aumentar a disponibilidade de informações sobre aquele terreno. Um hiperdocumento eletrônico poderia ser utilizado principalmente para o segundo caso; ainda assim, há casos de apresentações eletrônicas que se valem do conceito de realidade aumentada para permitir a visualização daquilo que não mais existe no próprio local.
O hiperdocumento em si deve aumentar a quantidade de informações históricas disponíveis sobre o patrimônio, e caberá a ele restabelecer as ligações com diversas abordagens e fontes históricas. Em geral, a valorização histórico-documental é abordada através de esquemas do tipo narrativa linear ou em árvore, constituindo uma série de argumentos lineares. Assim sendo, de quantos discursos históricos ele participa? Como eles interagem entre si? Como se relacionam com o edifício? Portanto, como essa obra se encaixa na trajetória de seu criador, Souza Aguiar? Como ela se encaixa no ecletismo? E no projeto de modernidade da Avenida Central?
Figura 5 - Retrato de Souza Aguiar publicado na Exposição de Saint LouisUma técnica empregada no caso do hiperdocumento sobre o edifício RB1, mencionado anteriormente, preconiza a criação de um parágrafo-resumo contendo os pontos-chave a serem demonstrados. Em termos de interface, no caso citado, cada parte do texto efetivamente faz a ligação com uma das seções, mas o principal é que essa síntese propicia uma noção clara daquilo que deve ser evidenciado. No caso do Palácio Monroe, poderia ser assim formulada:
O Palácio Monroe, pavilhão eclético de Souza Aguiar construído em 1904 para a Exposição Internacional de Saint Louis e reconstruído em 1906 na Praça Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, foi demolido em 1976, após ter abrigado diversos usos, entre eles, o de sede do Senado.
A partir desse parágrafo, podem ser ressaltados, portanto:
· A ligação do edifício com o estilo eclético, a partir da enumeração de outros exemplos, ponto de partida também para uma análise de seus significados na arquitetura brasileira, inclusive no que se refere à preservação;
· A sua autoria, e como se encaixa na obra de Souza Aguiar, com o registro de outras edificações e intervenções urbanísticas do engenheiro;
· A sua utilização como pavilhão em exposições, elas próprias símbolos da modernidade. Entre outras coisas, com a ligação para o website publicado por FURRIEL et al (1999), “O Brasil nas Exposições Internacionais”;
· A presença na Praça Marechal Floriano, e suas relações com esse entorno ao longo do tempo, coincidindo com as recomendações para demonstrar o valor de antigüidade;
· Os diversos usos que nele tiveram lugar, com destaque para o Senado, o que também coincidirá com algumas recomendações sobre o valor de uso;
· A polêmica sobre a demolição, documentando eletronicamente trechos de jornais e livros para subsidiar futuros debates, através de algum dos serviços de listas de discussão que possa ser incorporado ao site. O objetivo principal nesse ponto é demonstrar como a demolição do Monroe se encaixa numa estratégia de renovação e consolidação da arquitetura moderna brasileira.
O principal, do ponto de vista histórico-documental, é que o hiperdocumento ajude a que o edifício seja percebido como convergência de várias forças. Além disso, é importante estabelecer um fórum de discussão sobre o patrimônio – ou ao menos a indicação para listas já existentes e demais sites de referência.
No momento de sua criação, o Monroe celebrava a emergente República no Brasil, adotando inclusive o estilo eclético característico do regime. Essa celebração, de fato, deveria ser tanto interna quanto externa: tão importante quanto consolidar a imagem republicana no próprio país era consolidá-la para seus parceiros comerciais internacionais. Tão importante que o edifício, reconstruído aqui após a Exposição de Saint Louis, ou seja, depois de receber a chancela internacional, poderia ser símbolo no Brasil. Não deveria haver dúvidas, aliás, quanto ao fato do Palácio Monroe ser o original, e não a cópia do Pavilhão do Brasil: essa intenção de remontá-lo na capital está manifestada nos próprios documentos de comissionamento (AGUIAR, 1976:14). Afinal, nada impedia que, a exemplo da maioria dos pavilhões em todas as feiras, fosse simplesmente desmontado, ou mesmo dado de presente ao país-sede do evento. Diz Alcindo Guanabara, em seu discurso, em 1907:
“(...) a lição eficaz ao mundo inteiro sobre sua capacidade para gerir os destinos desta grande nação (...), essa, a República só a deu na Exposição de São Luiz. Foi um prodígio e uma maravilha para o Brasil essa exposição.
(...)
O que mais encarece esse triunfo é que, antes da atividade industrial, ele o foi daquilo que constitui o paradigma das civilizações: ele o foi da arte. (...) Foi a imprensa norte-americana que proclamou em face dele, a existência de um gênio sul-americano.” (AGUIAR, 1976:28-29)
Com a mudança de uso, de centro de convenções para Senado, o Palácio Monroe passou a simbolizar ainda mais as instituições republicanas. Para os arquitetos interessados em desenvolver as idéias modernistas, como vimos, representava também um período que chegou a ser chamado de “hiato na história da arquitetura nacional”. Na época da demolição, as opiniões sobre ele oscilavam entre “monstrengo” e simplesmente descaracterizado (AGUIAR, 1976).
[1] No original: “This was not the first time that Colonel Aguiar presented to the United States a structure of unusual excellence. At the World’s Fair in 1893 Brazil was represented by a pavilion which also attested the taste and originality of the architect”Nos parece que o valor de rememoração poderia ser representado no hiperdocumento, portanto, a partir do papel do Brasil nas Exposições Internacionais. Em primeiro lugar, evidentemente, pela Exposição de 1904. Mas a participação brasileira teve momentos de reconhecimento, pelas mãos do próprio Souza Aguiar, ainda em 1893, no qual o Brasil foi representado por um pavilhão que também atestava “o gosto e a originalidade do arquiteto” [1] (AGUIAR, 1976:22). Como afirmamos anteriormente, já existe pelo menos um documento eletrônico com tal tema (FURRIEL et al, 1999), cobrindo a participação brasileira até 1970, mas é sempre oportuno acrescentar informações e imagens, além de estabelecer a ligação entre diferentes documentos eletrônicos.
[2] Em duas emissões, 1919 e 1925, totalizando 10 milhões de cédulas que circularam durante 36 anosOutra abordagem para demonstrar o valor de rememoração poderia ser feita a partir da análise da representação do Monroe em determinados contextos – como efígie para as notas de 200 mil réis [2] ; selos postais, de 200 e 2000 réis, emitidos em 1937; e cartões postais (AGUIAR, 1976:9). Devem ser levados em conta também os mapas do centro do Rio, de forma que o conjunto permita traçar o perfil simbólico do edifício, principalmente no que se refere ao seu papel como representação dos emergentes valores republicanos.
O valor de uso, no momento da demolição, era, de fato, mínimo: por um lado, usos residuais do Senado, servindo para o encontro de senadores de passagem pelo Rio; por outro, a utilização pelo Estado Maior das Forças Armadas, de forma provavelmente pouco intensa, se levamos em conta justamente que as Forças Armadas tinham importância suficiente em 1976 para impedir a demolição, caso necessitassem de fato daquele espaço. No entanto, uma análise das atribuições passadas do edifício revela a sua grande versatilidade. Em seus primeiros tempos, funcionava como palácio de exposições e convenções da cidade, cumprindo também o papel de uma espécie de salão de festas, abrigando formaturas e chás dançantes para a sociedade carioca. De acordo com CASTRO (1926), BRENNA (1985) e AGUIAR (1976) – com informações adicionais do site do Senado –, traçamos a seguinte cronologia da utilização do edifício:
[3] “Desse democrático certame saíram as bases para a constituição da Confederação Brasileira do Trabalho, tendo por objetivo supremo promover os meios efficazes de constante melhoramento das condições economicas sociaes, intellectuaes e moraes do proletariado. (...) Entre os principaes [pontos capitaes do programa], é para salientar o que se refere á redução do horario de trabalho a oito horas por dia; descanso semanal obrigatorio para todas as categorias de operarios e trabalhadores; indemnização ás victimas dos sinistros no trabalho; regulamentação do trabalho nas fabricas, limitação do trabalho das mulheres e menores, prohibição absoluta do trabalho nas fábricas ás crianças inferiores a quatorze annos de idade; seguro obrigatorio (com participação nas despesas do estado dos patrões e dos operarios e trabalhadores) para indemnizar os proletarios nos casos de doença e de desoccupação forçada, e para lhes dar pensões na velhice, e nos casos de invalidez para o trabalho; e substituição do contracto collectivo ao contracto individual de trabalho.” (CASTRO, 1926:38) [grafia original] [4] “Do novo edificio se depreende esta divisão: pavimento térreo, em que se encontra a Portaria, sala de chapéos, Archivo, Correio e Telegrapho; primeiro pavimento, com dois terraços lateraes, no qual se encontram o hall de entrada, a Secretaria, o Gabinete do director e vice-director da Secretaria, as salas destinadas ás diversas commissões, salão nobre e a Bibliotheca; no segundo pavimento: a grande sala das sessões do Senado, gabinete do vice-presidente da Republica e vice-presidente do Senado, gabinetes dos secretarios do Senado, e salas de leitura, café e para os senadores. Há sobre o edificio um amplo terraço. Tem-se accesso a todos os pavimentos, por meio dos tres elevadores.” (CASTO, 1926:42)A reconstrução traria um pavilhão de exposições para o Rio de Janeiro; estritamente por este aspecto, é de se questionar se a cidade tem essa precisão. Projetar um hiperdocumento sobre o Monroe responde ao uso didático do edifício, sem que se tenha que pensar em outras atribuições.
Inicialmente, apontamos para o vazio urbano como um dos elementos-chave para a representação. Daí a demanda por uma análise do contexto urbano, para entender esse vazio. Além disso, se, em qualquer patrimônio, é essencial entender o porquê de sua preservação, no caso de um edifício não mais existente, temos que justificar a necessidade de sua representação simultaneamente às razões de seu desaparecimento. Finalmente, pelo histórico, depreendemos que as funções sociais e políticas exercidas no edifício são elementos de importância na sua integração com a cidade; a sua participação em duas Exposições Internacionais também é algo a ser destacado.
Figura 9 - Valor de uso da área, nos dias atuais: praça – com o maior chafariz do Rio de Janeiro – e estacionamento.O valor de uso em um hiperdocumento é traduzido, primeiro, nas informações práticas, do tipo: que instituições funcionam ali, quais os horários de funcionamento, como chegar, ou quais os serviços disponíveis. No entanto, podemos – e devemos, em se tratando de um edifício demolido, e portanto tem um uso ainda mais indefinido, para não dizer inexistente, se desconsiderarmos a esfera memorial – definir o uso do hiperdocumento em si. Aqui entram, portanto, questões como: público-alvo, tipo de mídia, distribuição, programas utilizados, e outras tantas questões também de fundo prático. Além disso, vimos anteriormente que a informação digital tende a ter maiores chances de se mobilizar os recursos necessários para sua compatibilização com as novas versões de computadores e programas na medida que é mais requisitada.
[5] Os blogs (contração de weblogs) são sites na Internet semelhantes a diários públicos. Estão se popularizando porque têm uma atualização muito mais simples que os sites normais, mas comportam menos recursos. Para textos e poucas imagens, no entanto, são muito mais ágeis. Na verdade, os serviços de blogs tratam basicamente da automação do processo de editoração e publicação em HTML na internet.No caso do Palácio Monroe, devemos observar o seguinte: o aplicativo deverá atingir o público leigo e os profissionais de arquitetura e patrimônio. Não consideramos necessário, no entanto, estabelecer níveis de aprofundamento nos temas – as informações sobre o Monroe não deverão ser de natureza tão técnica assim –, mas sim seções que interessam apenas aos profissionais da área, como o já mencionado fórum ou lista de discussão. A opção inicial pela Internet deve-se à origem acadêmica deste trabalho, que preconiza o acesso à informação – embora mais recursos possam ser satisfatoriamente empregados em um aplicativo baseado em CD-ROM. Por outro lado, é fruto também da necessidade de encarar tal aplicativo como uma obra aberta, passível de atualizações, porque será construída e mantida ao longo do tempo, uma vez que deverá ser repositório de informações, que poderão surgir, e ser incorporadas, a qualquer momento. Talvez o exemplo dos blogs [5] seja o mais próximo desse tipo de escritura intermitente.
Vimos que principalmente os valores estéticos e artísticos são dependentes das mudanças operadas nas sociedades, portanto os mais sujeitos a mudanças eles próprios; o que é particularmente mais relevante em uma sociedade apreciadora da moda e das mudanças. A vontade artística hodierna (apenas para evitar as associações entre moderna e modernista), qual seria?
O valor de arte, no seu aspecto de valor de novidade, certamente estava degradado porque a obra nem se encontrava no estado original, nem estava bem conservada – conforme vimos ao proceder à análise do valor de antigüidade. Quanto ao valor artístico relativo, o ecletismo tende a ser reabilitado como estilo importante para a formação da arquitetura nacional; além disso, cresce na nossa sociedade a consciência da preservação, especialmente das edificações pré-modernas e nos centros históricos das cidades. Ou seja, a partir da própria retórica da perda, poder-se-ia usar o edifício como ponto de partida para a salvaguarda de outras obras do mesmo período – ou como marco teórico para a demolição de outras tantas.
Nesse sentido, aliás, inclusive encontra-se um elemento chave para compreender as razões de demolição: o edifício não se encontrava em consonância com a vontade artística moderna (no caso, modernista), e a oposição ao que ele representava, no campo estético, era uma posição necessária para o estabelecimento da nova arquitetura tanto quanto a valorização do barroco e do colonial.
Os valores de RIEGL não contemplam explicitamente a questão do tecido urbano, também uma preocupação crescente nos princípios de preservação a que assistimos. No entanto, podem ser enquadrados como vontade artística moderna, e a preservação do entorno como parte do valor artístico relativo. Seja por isso, seja por considerarmos a evolução do conceito de patrimônio urbano (CHOAY, 2001; STROVEL, 1991), concluímos que a presença do edifício na Cinelândia cumpria um papel para a composição da praça, um valor urbanístico específico ligado inclusive ao valor dela para a cidade. Seria útil comparar as diferenças entre o fechamento da praça com o Monroe, com outro tipo de edificação e a situação atual, com o vazio.
Em 1906, quando o Monroe foi reconstruído na então nascente Avenida Central, seu papel era compor com o Obelisco o fechamento da Avenida. A demolição do Convento da Ajuda permitiu que esse fechamento fosse feito por meio da Praça Marechal Floriano, uma composição ainda mais forte, formada pelo Teatro Municipal, pelo Museu Nacional de Belas Artes pela Biblioteca Nacional, pelo Palácio Monroe e pela Assembléia Legislativa. Não podemos dissociar o apuro estético de tais edifícios com o fato de serem públicos, e, mais do que isso, equipamentos urbanos da maior importância para a Capital Federal de então. Temos, portanto, próximo ao local de fundação da cidade, uma praça verdadeiramente pública, centro político que não tardaria a ser também centro de lazer – e de vida social – graças aos cinemas que ali se instalariam lhe valendo a denominação de Cinelândia.
A construção desses edifício representa também o segundo momento estético da presença do Monroe, pois elevaram o gabarito imediato e a morfologia da praça. A graciosidade de um edifício isolado e relativamente pequeno como o Monroe ficou decididamente fora de escala.
O valor estético pode ser transposto para o hiperdocumento através dos recursos de imersão, de modo semelhante ao preconizado para o valor de antigüidade – embora aqui o passeio virtual interno fosse ainda mais necessário. Outro caminho ainda se apresenta: a criação de ensaios visuais com o intuito de ressaltar determinados detalhes do edifício – e, acrescentaríamos, ensaios sobre o próprio estilo eclético, com outros edifícios, já que novas imagens do Monroe só podem ser produzidas a partir das já existentes. A transposição para o hiperdocumento do valor estético diz respeito também ao desenho da interface. Esta deve não apenas refletir em termos gráficos o assunto tratado, conforme as tendências de design atuais, mas também o tipo de interação do usuário deve ser pensado de forma a se adequar ao tema. Como criação artística, esse design normalmente emerge da observação da iconografia disponível sobre o assunto. Quanto aos modos de interagir, provém da análise dos assuntos abordados. Ao que já está prescrito para essa interação, podemos acrescentar ainda estudos sobre a composição do prédio em termos volumétricos e de fachadas, na mesma linha seguida no aplicativo sobre o Ministério da Educação para os projetos do concurso.
[1] No original: “This was not the first time that Colonel Aguiar presented to the United States a structure of unusual excellence. At the World’s Fair in 1893 Brazil was represented by a pavilion which also attested the taste and originality of the architect”
[2] Em duas emissões, 1919 e 1925, totalizando 10 milhões de cédulas que circularam durante 36 anos
[3] “Desse democrático certame saíram as bases para a constituição da Confederação Brasileira do Trabalho, tendo por objetivo supremo promover os meios efficazes de constante melhoramento das condições economicas sociaes, intellectuaes e moraes do proletariado. (...) Entre os principaes [pontos capitaes do programa], é para salientar o que se refere á redução do horario de trabalho a oito horas por dia; descanso semanal obrigatorio para todas as categorias de operarios e trabalhadores; indemnização ás victimas dos sinistros no trabalho; regulamentação do trabalho nas fabricas, limitação do trabalho das mulheres e menores, prohibição absoluta do trabalho nas fábricas ás crianças inferiores a quatorze annos de idade; seguro obrigatorio (com participação nas despesas do estado dos patrões e dos operarios e trabalhadores) para indemnizar os proletarios nos casos de doença e de desoccupação forçada, e para lhes dar pensões na velhice, e nos casos de invalidez para o trabalho; e substituição do contracto collectivo ao contracto individual de trabalho.” (CASTRO, 1926:38) [grafia original]
[4] “Do novo edificio se depreende esta divisão: pavimento térreo, em que se encontra a Portaria, sala de chapéos, Archivo, Correio e Telegrapho; primeiro pavimento, com dois terraços lateraes, no qual se encontram o hall de entrada, a Secretaria, o Gabinete do director e vice-director da Secretaria, as salas destinadas ás diversas commissões, salão nobre e a Bibliotheca; no segundo pavimento: a grande sala das sessões do Senado, gabinete do vice-presidente da Republica e vice-presidente do Senado, gabinetes dos secretarios do Senado, e salas de leitura, café e para os senadores. Há sobre o edificio um amplo terraço. Tem-se accesso a todos os pavimentos, por meio dos tres elevadores.” (CASTO, 1926:42)
[5] Os blogs (contração de weblogs) são sites na Internet semelhantes a diários públicos. Estão se popularizando porque têm uma atualização muito mais simples que os sites normais, mas comportam menos recursos. Para textos e poucas imagens, no entanto, são muito mais ágeis. Na verdade, os serviços de blogs tratam basicamente da automação do processo de editoração e publicação em HTML na internet.