DISSERTAÇÃO EM URBANISMO - PROURB-FAU-UFRJ

A representação do patrimônio urbano em hiperdocumentos: um estudo sobre o Palácio Monroe > Capítulo 3 - O Palácio Monroe

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Referências Bibliográficas - O Palácio Monroe

3.2.   Sobre a demolição

De acordo com o que vimos no primeiro capítulo, a demolição de um edifício do patrimônio não é um evento neutro. É ela, também, parte do projeto da sociedade, e é um processo tão ativo quanto a preservação. Confrontaremos aqui as principais alegações a favor da demolição, conforme anunciadas na época, de modo a subsidiar a busca pelos valores representados pelo Palácio.

Figura 1 - Conexão da área de embelezamento resultante com o Passeio Público; visão da panorâmica da área e simulação com o edifício.
Acervo próprio

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Vejamos: em 4/7/1974, o jornal “O Globo” noticiava: “Arquiteto: Palácio Monroe não tem valor”, uma entrevista com o arquiteto professor da Faculdade Nacional de Arquitetura Wladimir Alves de Souza, na qual se denuncia que “a construção não tem o valor arquitetônico (...) nem representa um marco histórico!”: sua arquitetura é eclética, “resultado da mistura de diversas tendências (...) É apenas uma cópia” (AGUIAR, 1976:49). Sua defesa pela demolição advoga mais uma área ajardinada, complementar ao Passeio Público; e menciona ainda, como um perigo a ser evitado após a demolição, a especulação imobiliária, construtora de “monstros de concreto”.

Esse perigo parece afastado por conta do tombamento de parte da Cinelândia, que garante a ambiência e a visibilidade. Pela letra da lei, embora o Monroe não fosse tombado, não poderia ser erguido um arranha-céu sem seu lugar. É marcante ainda, num país em que leis podem não “pegar”, que as recomendações persistam sendo observadas, e que apenas recentemente uma garagem subterrânea tenha sido construída no local. Nos parece improvável, com isso, que a especulação imobiliária possa ser responsabilizada pela demolição do Palácio – apesar dos lucros obtidos pela empresa de demolição. Segundo o “Diário de Notícias” de 11/1/1976, após vencer a concorrência por Cr$191 mil, ela ainda teve direito a vender todos os materiais, “inclusive duas estátuas de leões”, e “somente na venda do ferro e cobre existente no Monroe vai faturar nove milhões de cruzeiros” (AGUIAR, 1976:108).

A afirmação de que se tratava de uma cópia, comum nos primeiros tempos do debate, já aparece desmentida em 11/7/1974, no mesmo jornal “O Globo”, pelo professor Paulo Santos, membro do Conselho Consultivo do IPHAN e do Conselho de Planejamento Urbano da Secretaria de Planejamento (AGUIAR, 1976:58-59). No entanto, foi retomada várias vezes depois, como no título da nota do jornal “O Globo” de 19/9/1975: “O Falso Palácio” (AGUIAR, 1976:68). Podemos dizer que derivou, ainda, na afirmação de descaracterização das formas originais – asserção que, embora inconteste, os defensores do edifício propunham como reversível.

Figura 2 - Simulação da visibilidade do edifício a partir da Cinelândia.
Acervo próprio

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O jornal “O Globo” foi o principal defensor da demolição do Palácio. Afirmava que isso iria abrir “no pleno coração congestionado do Rio, novo espaço de aeração e embelezamento urbanos” (AGUIAR, 1976:61). É estranho mencionar essas razões em relação a um edifício em centro de quarteirão, de gabarito mais baixo que o entorno, vizinho do Passeio Público, numa época em que o Aterro do Flamengo já estava construído – para o qual, portanto, nem mesmo a alegação de liberar a vista para o mar é procedente. Na verdade, com a quantidade de árvores, o próprio Monroe teria alguma dificuldade em ser visto da Cinelândia, se estivesse construído nos dias atuais.

O jornal buscou diminuir tanto quanto possível o valor histórico e estético do Monroe – de forma a minimizar a sua perda –, alegando que se tratava de uma cópia e pespegando-lhe o apelido de “monstrengo”, como na nota de 9/4/1974 (AGUIAR, 1976:60). A denominação de “monstrengo” encontrou eco por conta do estado deteriorado do edifício – apesar de no segundo andar funcionar o Estado Maior das Forças Armadas, e no subsolo funcionar parte da Biblioteca do Senado – além da representação do Senado no Rio de Janeiro, no primeiro andar. Em segundo plano, aliás, estava a discussão a respeito da sub-utilização do edifício e do desperdício de recursos federais com a manutenção dessa representação. Apesar disso, não havia risco do edifício ficar destituído de uso: requisitaram a utilização do edifício a Justiça Federal, o CREA (que propôs restaurá-lo com seus próprios recursos), a Secretaria Estadual de Educação, o Museu do Índio, o Serviço Nacional de Teatro e a Fundação Estadual de Museus.

Figura 3 - Comparação entre a configuração da malha vária atual, aquela da época da demolição e as alternativas propostas para o tráfego.
(Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro)

(AGUIAR, 1976:144-148)
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A construção do metrô, no trecho da Cinelândia ao Catete, é a razão final até hoje mencionada como definitiva para a demolição. Entendemos que seja dada a preferência a ela, por se tratar de desculpa técnica, portanto neutra – tem, de certa forma, o mesmo peso de um desastre natural, imparcial e inevitável –; mas carece absolutamente de fundamento. O trajeto do metrô foi desviado justamente para poupar o edifício, naquilo que o “Diário de Notícias” chamou de “a curva mais cara do projeto”, e a empresa de engenharia Franki chegou a publicar anúncios nos quais vangloriava-se do feito de ter assegurado que a estrutura do edifício não seria danificada pelas obras.

O tráfego, outra constante técnica, é naturalmente menos mencionado: o traçado do quarteirão permaneceu com alterações mínimas para os carros. Ainda assim, em 22/1/1975, o Clube de Engenharia forneceu um parecer defendendo a permanência do Monroe, baseado em diversos relatórios, entre os quais um sobre o tráfego, do engenheiro Ferdinando Gomes Lavinas. Nele, são estudadas quatro alternativas para a área, que mantém o quarteirão onde se encontrava o edifício. Apesar de nenhuma delas ter sido executada, ele foi demolido ainda assim.

O Clube de Engenharia, aliás, foi dos mais ferrenhos defensores públicos do Palácio, responsável pelo envio de vários ofícios ao Presidente Geisel, ao longo do ano de 1975. Também o CREA chegou a se pronunciar nesse sentido, e mesmo extra-institucionalmente um grupo de engenheiros, arquitetos e paisagistas publicou um manifesto de protesto em 1/12/1975. Uma das coisas que nos chamou a atenção foi a assinatura do arquiteto Mauricio Roberto: em entrevista ao jornal “O Globo”, em 5/7/1974, afirmou que era favorável à demolição porque permitiria “abrir mais espaço na área da Cinelândia e mais um local ajardinado na cidade, ao lado do Passeio Público (...) outros já falaram da ‘arquitetura pobre’ do Monroe e de suas características pouco originais para a arte moderna” e , portanto, do ponto de vista arquitetônico, “o velho palácio não tem nenhum valor, nada a acrescentar” (AGUIAR, 1976: 51). Embora tenha se convencido da necessidade de preservar, em lugar de demolir, acreditamos que esse fato sinaliza a natureza mais subjetiva que objetiva da questão.

Em 10/7/74, em reportagem n’”O Globo”, temos também a citação do processo de tombamento do “Conjunto Arquitetônico da Avenida Rio Branco”, escrito em 1972; mais especificamente do parecer de Lucio Costa: “Os prédios federais serão naturalmente preservados, com exceção do Palácio Monroe que já perdeu toda e qualquer significação e deve ser demolido em benefício do desafogo urbano” (AGUIAR, 1976:55 e MALHANO, 2002:161). O “desafogo urbano”, como vimos, faz parte mais do apelo à técnica do que de um planejamento de tráfego. Mas acreditamos que Lucio Costa apontava a abordagem correta com a menção à perda de significado – da mesma forma que o apodo “monstrengo”. Um edifício com ausência de valor pode ser reaproveitado – e revalorizado –; um edifício de valor negativo deve ser demolido. Pois, se vimos que a técnica proveu no que pôde a permanência, fica com a subjetividade das gentes a resposta; e ela será examinada através dos valores do patrimônio.