“À medida que fui envelhecendo e acumulando recordações, passei a me sensibilizar mais e mais com o desaparecimento de pessoas e referências urbanas. Para mim, eram especialmente perturbadoras as inexplicáveis demolições de prédios. Eu sentia como se, de alguma forma, eles tivessem alma.
(...)
E eu me pergunto sobre o que resta depois que um prédio é demolido.”
Will Eisner, “O edifício”
Uma recente polêmica no Rio de Janeiro envolveu a idéia de reconstrução do Palácio Monroe (CASCO, 2002), ex-sede do Senado Federal. Construído em 1904 para representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos EUA, remontado na Avenida Central (atual Rio Branco) para a 3a Conferência Pan-Americana, foi finalmente demolido em 1975. Nesse período, serviu como palácio de festas da cidade, como sede da Câmara dos Deputados, como sede da Exposição da Independência de 1922, e como sede do Senado Federal, até que, com a construção de Brasília, ficou sendo um edifício de apoio do Senado.
Em 2002, vozes se levantaram de ambos os lados para justificar ou execrar sua reedificação. Nenhum dos lados, contudo, defendeu o oblívio da edificação ou de sua influência para a própria composição da Cinelândia, menos ainda de seus registros. Pelo contrário, argumentaram que a lembrança da edificação precipitadamente demolida pode vir a servir como aviso para outras situações semelhantes, talvez pela preservação do próprio vazio que restou no local do edifício. Em suma, a história daquele vazio precisa ser contada, nas visões de ambos os lados. A partir disso, nos perguntamos se mesmo a reconstrução física do Palácio Monroe seria suficiente, ou se necessitaria de complementação de outros meios, mais eficientes até, de oferecer tais informações ao carioca – na época, a proposta mais provável de ocupação do edifício seria uma exposição sobre o próprio Palácio.
A comparação com o caso do Pavilhão Germânico, de Mies van de Rohe, é ilustrativa. Ele foi desmontado em 1929, logo após a Exposição Internacional de Barcelona, e remontado em 1983-1986. O Pavilhão foi uma das obras mais influentes do Modernismo, apesar da maior parte dos arquitetos conhecê-la apenas através de imagens de um edifício que já não existia.
Há que se considerar que Mies van der Rohe é um arquiteto de maior renome que Souza Aguiar. Mas não há como negar a repercussão do pavilhão brasileiro na Exposição de Saint Louis. Outras obras de arquitetos brasileiros também foram demolidas, sem que se cogitasse a reconstrução, ainda mais em se tratando de pavilhões de exposições. Mas o Monroe estava originalmente programado para ser reconstruído na Cinelândia, e reaproveitado. Deixou de ser apenas um pavilhão da Exposição da Compra da Louisiana para fazer parte do cenário carioca, em local de grande importância, ajudando a consolidar a imagem projetada para a Avenida Rio Branco, além de ter feito parte da Exposição Internacional de 1922, como sede administrativa. Observou-se, com respeito à reconstrução do Pavilhão de Mies, que o edifício não teria a confrontá-lo uma colunata clássica como durante a exposição. O Monroe reconstruído teria praticamente o mesmo entorno de 1976, ou ao menos um entorno de dinâmica semelhante, e em pleno processo de revitalização do Centro da cidade.
No entanto, a reconstrução do Pavilhão teve por objetivo representar as qualidades arquitetônicas daquele espaço. Exceto pelo entorno (a Exposição), é êxito facilmente verificável. A exposição germânica, naquele ano, segundo sabemos, foi o próprio Pavilhão, e é exatamente o exposto hoje – o “Pavilhão de São Luís” tinha por objetivo expor a produção cafeeira. Nas palavras do próprio marechal Souza Aguiar:
“O edifício era constituído de dois pavimentos, um mezzanino e o porão utilizado em parte para guarda de objectos e preparo do café servido diariamente aos visitantes. O andar inferior, além de quadros com vistas de paisagem, construcções e estatísticas instructivas, decorando as paredes apresentava completa exposição de café em vitrinas especiaes, algumas machinas para tratamento e escolha do grão, accionadas por motores eléctricos Ao centro, sobre a armação de madeira de lei que fazia parte da mobília expressamente preparada e remettida de São Paulo, erguia-se um verde pé de café com fructos, remessa do mesmo Estado” (in CASTRO, 1926:26). [grafia original]
De toda forma, temos que o valor estético pode ser recuperado pela reconstrução. O mesmo não se pode dizer do valor histórico ou de antigüidade. Este último, porque é antagônico a ela; já o valor histórico-documental depende do objeto original e de suas representações – a reconstrução pode cumprir o papel de representação, como de fato ocorre no Pavilhão de Mies, dado que é um objeto da história da arte. Não é o mesmo, mas serve a inúmeros estudos e aprendizados históricos igualmente.
Se mencionamos estas razões para reconstrução, é menos por concordarmos imperativamente com ela do que pelos benefícios que elas podem trazer para o pensamento sobre o patrimônio em geral, e sobre o papel do Monroe em particular. O que deve ser preservado no caso do Palácio Monroe? Como diz Argan:
“Se conservamos esses monumentos [dos povos da Antigüidade], o fazemos porque é uma exigência da nossa cultura, tanto assim que atribuímos a eles um significado completamente diferente daquele para o qual foram construídos.” (1993:226)
De modo que esse tipo de questionamento diz respeito ao que a sociedade em que o patrimônio se insere espera que ele represente. Dado o contexto da “retórica da perda” presente nos discursos do patrimônio brasileiro (GONÇALVES, 1996), pensamos que, em primeiro lugar, deve-se conservar a experiência: analisar as razões para a demolição do Palácio Monroe, justa ou injusta, contribuindo assim para o debate sobre preservação. Daí resulta que preservar o vazio do terreno ou reconstruí-lo é uma questão que deve ser examinada após o enriquecimento da representação desse patrimônio.
[1] URL: http:// www.palaciomonroe.com.brPrincipalmente pela quantidade de abordagens diferentes inicialmente previstas, e pelos recursos técnicos que permite açambarcar a custos relativamente baixos, nossa escolha para aprimorar essa representação é a construção de um hiperdocumento, para o qual lançamos aqui algumas diretrizes e mesmo um esboço da interface, posto que nossa experiência demonstra que ambos devem ser desenvolvidos em conjunto. Existem páginas na internet sobre o palácio, que inclusive cumprem o papel de divulgar textos e fotos de arquivos – a mais notável sendo o website “PALÁCIO MONROE” [1] (MEUCCI, c.2000). Baseia-se no trabalho de Aguiar (1976), que contribui para tornar disponível na rede, bem como às imagens da Biblioteca Nacional e do Arquivo Nacional sobre o Monroe. No entanto não aborda a questão da reconstrução – e, portanto, queda praticamente inexplorado o tratamento do edifício como patrimônio simbólico.
O objetivo seria, portanto, um hiperdocumento explorando diferentes formatos narrativos e interfaces sobre o Palácio Monroe, para um público com algum interesse e conhecimento em arquitetura e urbanismo no Rio de Janeiro, tendo como razão última examinar os porquês de demolição – e, em última análise, de reconstrução – de um edifício que deveria, segundo seus defensores, receber tratamento de patrimônio nacional.
[1] URL: http:// www.palaciomonroe.com.br