Desde 1995, o Laboratório de Análise Urbana e Representação Digital do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ (LAURD-PROURB/UFRJ), coordenado pelos professores Roberto Segre e José Ripper Kós, vem trabalhando com hiperdocumentos em CD-ROM e na Internet que tentam evidenciar as estruturas simbólicas das cidades latino-americanas, mais especificamente o Rio de Janeiro e Havana [1] – além de um projeto semelhante conduzido pelo professor Roberto Segre, em Buenos Aires, sobre a capital argentina. Tanto no CD-ROM “Rio Colonial” quanto “Havana Colonial”, o recorte temporal foi fruto da própria pesquisa, ao se ratificar a importância e a complexidade desses períodos no processo de formação dessas cidades.
Figura 1 - Representação esquemática das narrativas lineares aumentadas.
Ambos os casos possuem dois tipos principais de narrativas: narrativas lineares sobre tópicos ou módulos temáticos, referentes aos sistemas simbólicos, e a navegação por uma maquete estática – restrita a poucos pontos de vista preestabelecidos – contendo a trama urbana e as principais edificações do período. Estas, por sua vez, conduzem a páginas individuais de cada edificação. Esta segunda forma, portanto, relativamente ao dispositivo informacional, funciona como banco de dados organizado em mundo virtual. O CD-ROM “Havana Colonial” conta ainda com um terceiro tipo de narrativa no tópico “Relações das estruturas simbólicas”, que discutiremos adiante.
Figura 2 - Narrativas lineares apoiadas por narrativas espaciais.Estes hiperdocumentos contaram ainda com modelagens eletrônicas das cidades nos respectivos períodos coloniais, que serviram para produzir as imagens de base das análises, compondo animações dos diferentes módulos temáticos – análogos a capítulos em uma narrativa linear – como o sistema militar de Havana ou o ambiente natural no Rio [2] . A principal finalidade da modelagem, nesses trabalhos, é prover imagens-síntese de conceitos específicos no contexto urbano, como a influência do poder religioso no estabelecimento de um sistema de praças no Rio de Janeiro, ou a influência do poder militar na expansão de Havana [3] . Nesses tópicos, que constituem a parte principal de conteúdo em termos de contribuições analíticas autorais – ao menos no sentido convencional de autoria –, o dispositivo informacional principal é a narrativa linear.
Figura 3 - Sínteses.Dito dessa forma, poderiam ser erroneamente tomadas por narrativas lineares tradicionais, mas é preciso reconhecer alguns aspectos que modificam consideravelmente a experiência de leitura: o apoio de mensagens curtas em rede, no formato notas em hyperlinks; outros hiperlinks associados a imagens e filtros de ressalto que se sobrepõem a trechos das imagens já presentes na tela, combinados com o controle de tempo de leitura/animação e com o recurso de navegação direta pela linha do tempo. Em essência, o controle do nível de informação desejado em cada momento, seja em termos escritos ou de imagens. Descrito em termos de dispositivo informacional, trata-se de pequenas mensagens em rede, que não distorcem a narrativa linear principal em curso.
Por outro lado, a persistência da maquete eletrônica ajuda a estabelecer as relações espaciais entre os elementos ao longo do tempo; embora não permita a manipulação pelo usuário, um modelo deste tipo estabelece um mundo virtual narrativo, ainda que subordinado à narrativa linear principal. Da mesma forma, a narrativa espacial se mescla à narrativa em rede nos menus internos dos módulos em “Havana”, permitindo antecipar e comparar as configurações espaciais das subseções. Como afirmamos anteriormente, as narrativas, ou dispositivos informacionais, não são estanques, mas se mesclam em cada documento analisado.
Figura 4 - Narrativa espacial.Mesmo nas respectivas seções de navegação pelas maquetes, é forçoso reconhecer que poucos recursos associativos são oferecidos. Cada edificação conduz a uma e apenas uma página de apresentação da edificação, com uma maquete que permite a visão de 360o, sem associações horizontais entre cada edificação. De qualquer modo, num contexto de compreensão intelectual do espaço, a ênfase na interação não é imersiva, mas de estabelecimento de relações entre diferentes fatores. Portanto, o pré-estabelecimento de visadas e trechos de animação não chega a ser uma desvantagem, mas se torna ele próprio um elemento do discurso, quer nesta forma narrativa ou na narrativa linear.
Figura 5 - Narrativa em rede por matriz.A terceira forma narrativa de Havana está contida no módulo “Relações das estruturas simbólicas”. Trata-se de um plano da cidade associado a uma matriz de temas por três períodos de 100 anos. Cada tema, representado por configurações esquemáticas sobre o plano, pode ser selecionado de forma independente, o que permite sobrepor elementos e, finalmente, observar como o conjunto evolui em cada período. O esquema de matriz foi retomado mais tarde, como discutiremos adiante, no hiperdocumento sobre o edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.
Ainda assim, como hiperdocumentos no sentido do dispositivo informacional, ou seja, como mensagens em rede, esses trabalhos podem parecer tímidos, quando comparados a outras narrativas ramificadas, em especial no campo da ficção ou dos jogos eletrônicos. No entanto, lembremos que o problema que se colocava então era a representação da escala urbana ao longo do tempo, de modo a permitir análises urbanísticas.
Convém não esquecer também que o próprio processo de análise tende a ser linear, o que ainda hoje dificulta o rompimento com a narrativa tradicional para aplicações dessa natureza. Como saber se o leitor está seguindo o raciocínio desenvolvido pelo autor, se a argumentação for composta de partes aleatoriamente visitadas? Na verdade, como conduzi-lo a alguma conclusão? No entanto, na narrativa tradicional de esquemas analíticos, a divisão é feita em seções e subseções, e não raro a ordem de leitura pode ser alterada: “Uma unidade textual mínima (parágrafo, núcleo, lexia, átomo, pouco importa o nome) é linear. O que não é mais linear é a ordem de acesso a essas unidades” (LAUFER, 2001:159); a macroestrutura permanece como mais um elemento do discurso ou uma orientação, não chega a ser um roteiro inevitável. A linearidade total do discurso analítico talvez seja mais uma exigência de nossos costumes do que uma necessidade para a análise. Laufer (2001:160-161) leva essa questão ainda mais longe, argumentando que a deslinearização põe a descoberto o artifício do dispositivo linear, em especial no que se refere à argumentação e à retórica; ressaltando que um dispositivo de oscilação entre diversas transformações retóricas (a ponderação dos fatos em função de objetivos escondidos) e a base argumentativa e factual é “um ganho não desprezível”.
Portanto, uma das soluções é levar o raciocínio da divisão adiante e quebrar o texto em partes discretas ainda menores, que guardarão relações entre si; mas que serão mensagens plenas de significado recombináveis de fato em qualquer ordem sem prejuízo para o entendimento global. Essa solução é corroborada, novamente, pelas restrições da mídia: embora o tamanho total dos textos escritos não seja um impedimento técnico, na prática verifica-se bastante incômoda a leitura de trechos muito longos na tela do computador. Mais um estímulo para que o texto seja particionado – e significa também, não custa lembrar, que é conveniente escrever direcionado para o dispositivo, já que não é costume dos analistas ainda hoje escrever diretamente em hipertexto. Na verdade, é uma dificuldade fazê-lo para qualquer um, dada a escassez de ferramentas adequadas.
Fazendo um desvio, estabeleçamos uma tipologia de links, segundo o ponto de chegada e sua relação com o texto ou nó de origem: somos capazes, hoje, de apontar três grupos principais: as notas, que são confrontadas diretamente com o texto principal de origem (valendo também para imagens); as remissões, que transladam de um nó principal para outro; as externas, que enviam para nós que não estão incluídos na obra.
Veremos agora como o processo de subdivisão se aplicou em dois casos, os sites “Um palácio na cidade” e “A cidade que não existe / The city that doesn’t exist”.
[4]
“Um palácio na cidade”. URL: http://www.fau.ufrj.br/
prourb/catete/. [5] Pesquisa “Ícones Urbanos e Arquitetônicos
no Século XX”, em desenvolvimento no PROURB, financiada pelo CNPq, orientada pelos
professores Roberto Segre, José Ripper Kós, José Barki e Andrea Borde.
Em 1996, decidimos concentrar nossos esforços e analisar uma única edificação, o Palácio do Catete [4] , o que nos permitiu condensar várias proposições que vinham sendo aplicadas na escala da Havana Colonial, ao mesmo tempo em que produziu uma inversão de perspectiva que mais tarde adotamos como outra vertente de pesquisa, a leitura da cidade através de um de seus ícones. Atualmente, esta linha de pesquisa usa o Palácio Gustavo Capanema, ex-Ministério da Educação e Saúde, para analisar diversos pontos de transformação da arquitetura e do urbanismo cariocas [5] .
[6] Site de busca na internet. http://www.altavista.comO trabalho do Palácio do Catete contém alguns elementos que consideramos ainda hoje importantes para estabelecer uma leitura através de hiperdocumentos que usufrua suas potencialidades. O uso de links diferenciados, segundo sejam referências dentro da própria página ou referência a um frame externo (uma das fotos, por exemplo) indica como não apenas a estrutura do discurso se modifica, mas também sua forma, condensada em pequenos textos interligados e agrupados. Além disso, um outro tipo de link leva a uma mensagem em fluxo de dados, abrindo uma janela com os resultados de uma pesquisa do “Altavista” [6] . Apesar de razoavelmente parametrizada para obter resultados relacionados ao conteúdo do site, ainda assim é bastante dinâmica, e, por vezes, surpreendente; e sempre, de uma forma ou de outra, automaticamente atualizada.
Figura 7 - Narrativa em rede por árvore.De fato, em se tratando de objetos do patrimônio urbano, várias são as dimensões segundo as quais eles podem ser examinados. Em determinado momento, foi necessário falar da excelência da decoração, e sobre a ascensão burguesa que isso representava; em outro, sobre o contexto urbano na época de sua construção, justificando a escolha do terreno; mais adiante, sobre as alterações paisagísticas dos jardins. O website está hospedado dentro do site do Museu da República, demonstrando a propriedade de recombinação dos hiperdocumentos: ao mesmo tempo em que o trabalho como um todo é um dos elementos da macro-narrativa do Museu, algumas de suas imagens foram reaproveitadas em outras seções, fora do contexto original.
Por outro lado, a ênfase visual associada aos hiperdocumentos de patrimônio urbano – afinal, são objetos de arquitetura e da cidade tangível – nos levou a adotar, quando possível, a navegação através de imagens do modelo tridimensional concomitante à navegação por botões escritos. Estimulou também o desenvolvimento de animações, como as que tratam do fluxo do edifício em planta. Narrativas absolutamente lineares, ainda que gráficas, elas existem como componentes de uma estrutura em rede, do mesmo modo que os diversos textos que compõem o hiperdocumento.
A estrutura geral do site ainda é a de tópicos e subtópicos, mas estes foram tratados na medida do possível como módulos independentes. Além disso, procuramos evitar que a estrutura em árvore fosse composta de muitos níveis, deixando as páginas mais ricas em informações tão perto da “superfície” quanto possível. Se a hierarquia e o posicionamento desses conteúdos particionados são fixos, no entanto admitem grandes variações na ordem de apresentação e leitura. É certo que vários livros admitem esse tipo de leitura, sem ser necessário recorrer ao exemplo da enciclopédia: anais de congressos ou coletâneas de artigos de um mesmo autor também funcionam assim. Isso apenas confirma que os dispositivos informacionais não estão presos a nenhuma mídia específica, mas se aproveitam das características de cada uma. No caso do site, tentamos nos aproveitar das potencialidades da mídia e das linguagens utilizadas, o que nos levou à decomposição em elementos mínimos de narrativa linear subordinados a uma narrativa principal em rede por árvore.
Figura 8 - Narrativa em rede por tópicos.Alcançamos um maior desenvolvimento desse tipo de escritura com o artigo “A cidade que não existe / The city that doesn’t exist” (KÓS et al: 1999). Nele, o índice é composto por temas subdivididos em unidades textuais mínimas, e está sempre presente numa coluna lateral ao texto exibido. O fato é que o texto total foi construído de tal forma que cada parte fosse de leitura independente da outra. Apesar da estrutura em árvore, é uma árvore de apenas um nível, ou seja, com praticamente nenhuma hierarquia – de fato, poderia ser uma amostragem de ordem aleatória em cada agrupamento temático, sem prejuízo do sentido que esperávamos que o hiperdocumento tivesse. No entanto, o índice é, ele próprio, um dos elementos do discurso – mas, como dissemos anteriormente, não é a única orientação possível. A presença constante na tela apenas reitera isso, já que o acesso a qualquer outra parte da narrativa é imediato.
O trabalho atualmente desenvolvido pelo LAURD é sobre o Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, projeto de 1936 de autoria de Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Affonso Reidy e Jorge Moreira, com consultoria de Le Corbusier.
Figura 10 - Narrativa em rede por matriz.Tanto no módulo que trata do concurso público para realização do edifício quanto no que trata da evolução do projeto depois de comissionado à equipe de Lucio Costa, buscamos que conceitos e imagens fossem mesclados de forma a extrair o máximo da narrativa em rede apresentada como matriz bidimensional. No primeiro caso, é possível comparar cada projeto representativo do concurso – nomeadamente os três primeiros colocados, mais os posteriormente influentes projetos de Jorge Moreira e Affonso Reidy – a partir de suas características tipológicas, volumétricas, de circulação, de aberturas e relacionamento com o entorno. Aqui a interface procurou enfatizar as possibilidades de comparação tanto entre edifícios como entre abordagens.
No caso da evolução, cinco momentos-chave do desenvolvimento do projeto, desde a primeira versão da equipe brasileira até o projeto final – passando por duas propostas de Le Corbusier, uma no terreno à beira-mar da praia de Santa Luzia e outra no terreno original do Castelo, e uma proposta posterior da equipe brasileira já mais próxima da solução definitiva – podem ser analisados quanto a categorias referentes aos componentes de projeto, como praça seca, motivações (um pequeno histórico das decisões do projeto), sistema verde, lâmina de escritórios, bloco de apoio (de exposições), pilotis, teatro e inserção urbana. Uma vez que várias outras informações deveriam estar acessíveis na tela, optamos por integrar o destaque de comparação desses elementos ao próprio menu, deixando espaço para outras informações com disposição mais livre.
Figura 11 - Narrativa em rede por tópicos e por agrupamento.O módulo de referências históricas segue o padrão de páginas acessíveis por um menu, uma estrutura em árvore de dois níveis, com recortes de fotos que permitem ver as respectivas imagens inteiras acompanhadas de parágrafos explicativos. Observe-se que as fotos aqui seriam um recurso de apoio ao texto, o que levou a uma interface na qual esse papel complementar não interferisse na leitura, mas proporcionasse a descoberta.
Já no módulo de referências tipológicas, o uso de um padrão de árvore de um nível com agrupamentos por assunto – semelhante, portanto, à estrutura do artigo “The city that doesn’t exist” (KÓS et al, 1999) – justifica-se pela ênfase nos elementos visuais, eles próprios requeridos para comparação. Aqui, o texto é acessório, enquanto as imagens são os elementos de análise; portanto explica-se a utilização de ícones no menu que dá acesso a cada sub-tópico, diferente do módulo histórico.
Se no hiperdocumento “Havana Colonial” temos duas ou três interfaces para representar a cidade, no caso presente a variedade de abordagens – histórica, tipológica, urbana – exigida para compreender as relações do edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública com a cidade resulta em um número igualmente variado de interfaces. No entanto, em Havana as interfaces apresentam duas narrativas principais, a linear e a espacial, com a narrativa em rede subordinada a elas; no caso do MESP, temos diferentes especializações da narrativa em rede – tópicos, agrupamentos e matrizes – servidas pelo mundo virtual e pela narrativa linear. Uma das razões, claro, é a experiência adquirida na produção de hiperdocumentos pela equipe ao longo do tempo; a outra, que nos parece igualmente relevante, é a facilidade do hiperdocumento conjugar diferentes abordagens sobre um mesmo objeto, o que é normalmente o caso quando se pretende analisar a influência de um edifício sobre uma cidade.
[7] Participamos de uma disciplina eletiva do mestrado em Urbanismo do PROURB
oferecida pelo LAURD, chamada “Ícones Urbanos e Arquitetônicos do Século XX”, cujo
trabalho proposto era justamente criar representações de edificações ou elementos
urbanos considerados ícones da cidade que de esclarecessem a condição de ícones,
ou elementos de convergência de significados da cidade. O edifício, construído
entre 1983-1990 e projetado por Edison Musa, é um edifício de escritórios de fachada
pós-moderna historicista, e a sua escolha se deu como uma maneira de analisar
a Praça Mauá e de deliberadamente evitar edificações do patrimônio histórico da
cidade, de modo a incluir edifícios contemporâneos na análise e clarificar o próprio
conceito de ícone.
No segundo semestre de 2001, fizemos um hiperdocumento sobre o edifício Centro Empresarial Internacional Rio, conhecido como RB1 [7] . Desde o início, buscamos explorar o potencial da própria forma de interação como elemento de representação. Em outras palavras, a macroestrutura e as interações que ela permite têm tanto a comunicar quanto os textos e ilustrações nas diversas páginas onde o leitor se detém.
A orientação mestra desta estrutura teve como ponto de partida um dos livros de Italo Calvino, “O Castelo dos Destinos Cruzados” (1991). Nele, um conjunto de narrativas é estabelecido a partir da disposição de cartas de baralho, recombinadas para formar diferentes histórias. Ou seja, um conjunto de unidades semânticas mínimas e ao mesmo tempo altamente complexas, a serem combinadas segundo regras específicas – uma restrição que o próprio Calvino, no posfácio, reconhece como um estímulo à criatividade. De fato, os jogos - eletrônicos ou não - lidam exatamente com a interação. Cada partida deve ser, e de fato é, sensivelmente diferente das outras, não obstante a perenidade das regras. Johnson (2001) sugere que deveríamos avaliar as representações eletrônicas – os jogos eletrônicos principalmente, mas todos os hiperdocumentos –, não pelos parâmetros do romance ou mesmo do filme, mas pela interface, ou seja, por uma nova relação com o espectador. Isso significa que podemos buscar também nos jogos fontes de inspiração para as possibilidades de interação. À medida que se possa aplicar uma formulação semelhante para textos analíticos, reside aí grande potencial para extrair do hiperdocumento o seu potencial de proporcionar novas maneiras de demonstrar raciocínios.
Figura 13 - Exemplo de narrativa em dominó.E aqui, é bom lembrar, nos referimos a quaisquer hiperdocumentos, eletrônicos ou não. Pois, num primeiro momento, foi exatamente abandonando o suporte digital em favor de desenvolver o trabalho como um verdadeiro dominó de cartas dispostas sobre a mesa, com regras de combinação claras, que percebemos que esse painel, resultante das interações de leitores-jogadores, poderia ser tão interessante e coeso quanto os textos contidos em cada carta. A variabilidade de conexões é relativamente simples de ser obtida. A chave a permitir a coesão seria exatamente a regra de combinação. Uma variante para a narrativa em hiperdocumento por matriz, cuja vantagem é justamente restringir as possibilidades de ligação. Embora soe paradoxal, essa restrição permite maior liberdade na escolha e na associação dos temas e categorias, já que não traz embutida a obrigatoriedade de cruzamento de todos os elementos.
Ao mesmo tempo, a apropriação dos mecanismos do jogo tenta recuperar a ênfase nas ligações entre cada página. Na verdade, o hiperdocumento foi idealizado inicialmente como um conjunto de cartas de papel cartão, que pudessem ser jogadas como um dominó, com cada participante tentando estabelecer conexões entre os elementos para se livrar das cartas. A intenção seria também desenvolver o potencial de recombinação dos elementos implícita nos hiperdocumentos:
[8] No original: “La disponibilidad instantánea de todas las posibilidades articulatorias del texto-verbo-audiovisual favorece un arte de la combinación, un arte potencial, en el que, en lugar de una ‘obra’ terminada, se tienen sólo sus elementos y sus leyes de cambio definidas por un algoritmo combinatorio. La ‘obra’ ahora se realiza exclusivamente en el acto de lectura y en cada uno de estos actos ella asume una forma diferente, aunque en el límite, inscripta en el potencial dado por el algoritmo.”“A disponibilidade instantânea de todas as possibilidades articulatórias do texto-verbo-audiovisual favorece uma arte da combinação, uma arte potencial, na qual, em lugar de uma “obra” terminada, temos somente seus elementos e suas leis de mudança definidas por um algoritmo combinatório. A “obra” agora se realiza exclusivamente no ato de leitura, e em cada um desses atos ela assume uma forma diferente, apesar de, no limite, inscrita no potencial dado pelo algoritmo. “ [8] (MACHADO, 1998:16) [tradução nossa]Figura 14 - Narrativa em rede por jogo.
Johnson (2001:80-101) afirma que as potencialidades do uso de links ainda não estão plenamente realizadas porque os desenvolvedores do HTML têm dado pouca atenção a este elemento específico, especialmente no que se refere ao registro dos diversos pulos de um link a outro e no compartilhamento desta informação – de modo análogo à leitura de anotações marginais. Esta possibilidade, prevista no projeto do Memex descrito por Vannevar Bush (1945), ainda está longe de ser realizada, principalmente para os navegadores da Web. As ferramentas estão longe do ideal para tanto, mas o desenvolvimento futuro do processo de escrita precipita a se realizar ainda assim:
“A filtragem da informação se desenvolve no tempo linear de minha pesquisa e se integra progressivamente à minha escritura. A informação que seleciono torna-se em parte o artefato que procuro. (...) o trabalho num ambiente virtual em rede modificará o comportamento e os objetivos do pesquisador, uma vez que ele consultará facilmente um grande número de referências e guardará vestígios delas. (...) A constituição relativamente rápida de centenas, ou mesmo milhares de fichas, imporá a utilização de bases de dados pessoais, e, por conseguinte, de descritores numa lógica não-linear” (LAUFER, 2001:157-158)
Antes mesmo disso se realizar plenamente, a disponibilização da coleta de informação em diferentes fontes, ou melhor, do conjunto de referências, com a capacidade de levar imediatamente o navegador ao documento referenciado, é apontada como um desenvolvimento-chave para as ciências humanas. Nas palavras de LAUFER:
“num sistema mais aberto, isto é, mais bem compartilhado (...) remeto aos lugares da biblioteca que contém esses fragmentos [reproduzidos da biblioteca] em seu próprio contexto. (...) O que teria sido meu texto, torna-se, pelo menos em parte, um percurso, ou mesmo uma proposta de percurso, um texto-acontecimento.” (2001:159)
Nós mesmos, quando passamos da versão física para a eletrônica, não desenvolvemos ainda um recurso capaz de transpor justamente a montagem e exploração do painel final, quanto mais modos de salvar, recuperar e compartilhar estas experiências – nos concentramos inicialmente apenas nas regras de combinação. Entretanto, acreditamos que a narrativa em hiperdocumento do tipo dominó (ou paciência) pode vir a ser de grande interesse para o desenvolvimento dessas idéias.
[1] Pesquisa “Evolução dos Sistemas Simbólicos da Cidade Latino-Americana” realizada no PROURB, financiada pelo CNPq, orientada pelos professores Roberto Segre, Rachel Coutinho, José Ripper Kós, Lilian Fessler Vaz e Eduardo Vasconcellos.
[2] Alguma forma de manipulação das maquetes em tempo real acontece apenas com as edificações isoladas, no caso do CD do Rio – entretanto, são animações pré-gravadas que, apropriadamente programadas, dão ao usuário a ilusão de manipular o objeto.
[3] Para maiores detalhes sobre estes trabalhos, ver o artigo na internet de KÓS et al, “A cidade que não existe” (1999).
[4] “Um palácio na cidade”. URL: http://www.fau.ufrj.br/prourb/catete/.
[5] Pesquisa “Ícones Urbanos e Arquitetônicos no Século XX”, em desenvolvimento no PROURB, financiada pelo CNPq, orientada pelos professores Roberto Segre, José Ripper Kós, José Barki e Andrea Borde.
[6] Site de busca na internet. http://www.altavista.com
[7] Participamos de uma disciplina eletiva do mestrado em Urbanismo do PROURB oferecida pelo LAURD, chamada “Ícones Urbanos e Arquitetônicos do Século XX”, cujo trabalho proposto era justamente criar representações de edificações ou elementos urbanos considerados ícones da cidade que de esclarecessem a condição de ícones, ou elementos de convergência de significados da cidade. O edifício, construído entre 1983-1990 e projetado por Edison Musa, é um edifício de escritórios de fachada pós-moderna historicista, e a sua escolha se deu como uma maneira de analisar a Praça Mauá e de deliberadamente evitar edificações do patrimônio histórico da cidade, de modo a incluir edifícios contemporâneos na análise e clarificar o próprio conceito de ícone.
[8] No original: “La disponibilidad instantánea de todas las posibilidades articulatorias del texto-verbo-audiovisual favorece un arte de la combinación, un arte potencial, en el que, en lugar de una ‘obra’ terminada, se tienen sólo sus elementos y sus leyes de cambio definidas por un algoritmo combinatorio. La ‘obra’ ahora se realiza exclusivamente en el acto de lectura y en cada uno de estos actos ella asume una forma diferente, aunque en el límite, inscripta en el potencial dado por el algoritmo.”