DISSERTAÇÃO EM URBANISMO - PROURB-FAU-UFRJ

A representação do patrimônio urbano em hiperdocumentos: um estudo sobre o Palácio Monroe > Capítulo 2 - Hiperdocumentos sobre o patrimônio

<< sumário >>
- Hiperdocumentos
- Hiperdocumentos e patrimônio urbano
- A escala urbana
Referências Bibliográficas - Hiperdocumentos

2.2. Hiperdocumentos[^]

Uma das possibilidades de documentos de apoio ao patrimônio urbano são os hiperdocumentos. De acordo com Lévy (1996:35-50 e 1999:55-60), hiperdocumentos ou hipertextos são, em essência, textos estruturados em rede – sendo que “texto” aparece aqui no sentido mais amplo, não excluindo sons nem imagens. Através desta definição, qualquer texto remissivo pode ser classificado como hiperdocumento. Isso inclui enciclopédias e dicionários, e talvez tenham sido estas modalidades de texto aquelas a mais se beneficiar inicialmente dos avanços tecnológicos da navegação auxiliada pelo computador. Mais do que da localização imediata de determinado verbete, a leitura desse tipo de obra se beneficia da facilidade para se chegar às ramificações deste. É o que o próprio LÉVY denomina “pequena revolução copernicana” dos instrumentos de leitura, ao transferir o trabalho de deslocamento entre verbetes para a máquina, movimentando o texto para um leitor agora estático – de “bibliocêntrico” para “leitorcêntrico”.

Por outro lado, Lévy observa a confusão de nomenclatura gerada pelo termo “multimídia”, freqüentemente associado a hiperdocumentos. De fato, o uso os torna quase sinônimos, mas isso não significa que o termo “multimídia” não possa induzir a erros conceituais: a mídia é o suporte, e nesse sentido um CD-ROM é “unimídia” mesmo contendo hiperdocumentos. Assim, Lévy (1999:65), ao tentar esclarecer este equívoco, define o conteúdo dos CD-ROMs como hiperdocumentos, ou documentos multimodais (implicam diversos sentidos, via texto, som, imagens, cinestesia) interativos (levam em conta a intervenção do usuário para a reorientação do fluxo informacional em tempo real) de suporte digital. E mesmo esta definição carrega alguns problemas conceituais, mais facilmente notados pela difusão dos gravadores de CD-ROMs caseiros: um CD-ROM é meramente um dispositivo de armazenamento de informações. Seu conteúdo digital pode ser composto de arquivos sem relação alguma entre si, ou, por exemplo, de arquivos de música, em nada se diferenciando de um CD de áudio regular.

Ainda que nos utilizemos da segunda definição, mais restrita, que implica na utilização do suporte digital, a existência de um hiperdocumento não está limitada a este ou aquele dispositivo de armazenamento – brevemente utilizaremos DVDs – e nem mesmo ao computador pessoal como o conhecemos como palco principal de execução de hiperdocumentos. Isso porque convém não negligenciar a popularização das possibilidades de fusão entre televisores e mouses e teclados, tirando o computador pessoal como principal “palco” de execução de hiperdocumentos eletrônicos.

Suporte digital, no entanto, é mais do que estar contido em um CD-ROM ou na Internet, e a necessidade de interpretação por um processador tem implicações mais profundas do que aparenta. Em primeiro lugar, a natureza digital permite a cópia sem perdas em relação ao original – em compensação, não admite meio-termo, e um arquivo de computador “quase igual” é praticamente inútil. Por outro lado, a atualização do código binário em alguma linguagem inteligível, operada por um processador no momento preciso de leitura, abre grandes possibilidades de interação com o leitor – ou simplesmente permite a exibição de dados mais recentes que aqueles utilizados na época de confecção do documento.

Mas deparamo-nos ainda com uma indefinição sobre o que considerar como hiperdocumentos. Laurini é mais específico e restritivo, colocando a ênfase no acesso direto de material organizado de modo não-linear, necessariamente por computador:

[1] No original: “... a modern version of non-linearly organised materials. That is, they are electronic documents with direct access to information of diverse form by means of window presentation and mouse clicking on important words or other displayed information.”
“... uma versão moderna de matérias organizadas de forma não-linear. Ou seja, documentos eletrônicos com acesso direto à informação em diversas formas apresentadas em janelas acessadas por cliques de mouse em palavras importantes ou em outras informações exibidas." [1] (LAURINI, 2001:124) [tradução nossa]

As características principais dos hiperdocumentos, em resumo, são: narrativas não-lineares, compostas de fragmentos interligados por remissões devidamente sinalizadas. Além disso, apresentam quase sempre algum tipo de índice de acesso imediato em qualquer ponto da narrativa, uma meta remissão que permite a compreensão do plano da obra – ou, ao menos, o acesso a outras meta-remissões, como instrumentos de navegação. Sem negarmos as possibilidades de existência de narrativas em hiperdocumento fora dos computadores, centraremos o presente estudo justamente nas que foram feitas para leitura como auxílio destes. Trabalharemos principalmente com este extremo, sem contudo esquecermos as influências que a mídia digital exerceu e ainda exerce na própria composição de hiperdocumentos analógicos, como guias turísticos e mapas.

Estas características são importantes para a apreensão do patrimônio histórico, quer do edifício isolado, quer do edifício como parte do sistema, pela capacidade de contextualização inerente ao hiperdocumento. De fato, sua própria essência é a contextualização, através das referências cruzadas. Elas evidenciam o próprio caráter de fragmento do edifício histórico na cidade contemporânea, e o seu sentido incompleto quando desprovido das referências. A linguagem do hiperdocumento permite articular estes fragmentos de informação que facilitam ao leitor construir o sentido desses monumentos históricos.

O quadro de dimensões da comunicação, proposto por Lévy (1999:64) é bastante útil para esclarecer alguns dos conceitos com os quais lidaremos ao longo desta pesquisa. Entretanto, chamamos a atenção para o fato de que a subdivisão dos dispositivos informacionais, ou seja, as relações entre os elementos da informação – na qual são diferenciadas mensagens com estrutura linear, mensagens em rede, mundos virtuais e fluxos de informações –, não impede que diferentes dispositivos estejam mesclados num mesmo hiperdocumento, apesar dos hiperdocumentos estarem classificados como mensagens estruturadas em rede; e mesmo que essa mesclagem não se faça atualmente sem grandes dificuldades técnicas, apesar dos esforços da indústria de softwares para permitir a convergência. Daí a necessidade de usarmos uma definição mais abrangente de hiperdocumentos, mas que, ao mesmo tempo, traga em seu cerne a estruturação em rede de mensagens em diferentes linguagens, a interatividade como elemento da narrativa, e a ênfase no navegador para facilitar as inter-relações entre as mensagens. Consideramos este ponto fundamental para compreender a contribuição dos hiperdocumentos, porque as próprias inter-relações passam a fazer parte da narrativa. Já não se trata apenas daquilo que é dito em cada nó da rede, mas o próprio caminho percorrido; é a rede em si que também conta uma história.

Os hiperdocumentos eletrônicos são um tipo relativamente novo de documentos, e podemos apontar para as origens de sua utilização relacionada ao patrimônio com os primeiros quiosques interativos dos museus. A elaboração de ambientes virtuais digitais, por outro lado, embora tenha uma forte associação com a representação do futuro, na forma de maquetes eletrônicas de projetos, pôde, desde cedo, pelo viés da representação do ficcional - ou seja, de ambientes cinematográficos -, ser associada à investigação do passado. No entanto, para além do deslumbramento tecnológico – os hiperdocumentos não eletrônicos ligados ao patrimônio existem há pelo menos um século –, questionamos que mudanças qualitativas o hiperdocumento eletrônico pode trazer para a percepção desta cidade fragmentada em que vivemos.

2.2.1. Hiperdocumentos e patrimônio urbano [^]

O hiperdocumento explicita a condição do patrimônio como dependente de múltiplas mensagens para se constituir como tal – o que é reforçado pelo freqüente uso de diferentes linguagens. Este dispositivo informacional tem a vantagem de colocar em primeiro plano o relacionamento entre diferentes representações. Por outro lado, ao mediatizar mídias, afasta ainda mais a representação do objeto. Já somos alertados por Virilio (1993:18):

“o desequilíbrio crescente entre a informação direta e a informação indireta (...) tende a privilegiar indiscriminadamente toda informação mediatizada em detrimento da informação dos sentidos, fazendo com que o efeito do real pareça suplantar a realidade imediata” (grifo original).

Vale ainda observar as considerações de BUENO sobre a fragmentação nos hiperdocumentos:

“A não linearidade (característica básica de um sistema hipermídia) traz consigo a liberdade de opção, que pode levar o usuário à desorientação. Essa dispersão pode ser:
1.Local - Perda do significado de um fragmento de informação localizado fora do contexto;
2.Global - Dificuldade de localização em um espaço de muita informação.” (2001:40)

O que nos leva a perguntar: em que ponto está o equilíbrio para que a informação indireta mais informe que deforme a informação direta? Como é produzida esta modalidade particular da informação, o hiperdocumento, quando relacionada ao patrimônio, elemento fundamental para a estruturação da imagem da cidade? Podemos argumentar que o hiperdocumento coloca o leitor, economicamente, em contato com representações interativas dos documentos originais. Se isso pode ser prejudicial para a percepção da realidade imediata desses documentos originais, essa facilidade de aproximação com as fontes primárias – aproximação que não exclui a mediação, vale lembrar – é certamente benéfica para a apreensão do patrimônio referido, ao contextualizá-lo simultaneamente como ponto nodal de uma rede de conhecimentos sobre a cidade, rede que tem uma configuração ao mesmo tempo textual e espacial.

Diz Huyssen que “a memória social e coletiva é construída através de uma variedade de discursos e diversas camadas de representações” (2000: 80). O hiperdocumento tem grande facilidade de acomodar diferentes vozes ou vieses interpretativos, numa mesma narrativa, estimulando o leitor a perceber as diversas versões que compõem as múltiplas verdades do ambiente urbano. Huyssen considera o novo museu do Holocausto em Washington, D. C., bem sucedido justamente por conjugar eficientemente toda uma variedade de discursos, além de documental e midiática (2000: 82), que é precisamente uma das características fortes da narrativa em hiperdocumento.

Poderíamos pensar mais além e, dentro desta “grille de travail” combinatória, como chamou a atenção Argan (1993:62-66), pensar nesta forma de leitura como um estímulo à escrita, ou melhor, à reescritura da significação dos monumentos históricos através da reescritura de suas representações. Laufer (2001:161) chega mesmo a conceituar uma biblioteca imaginária constituída por fragmentos recombináveis em função das propostas dos pesquisadores e da demanda dos leitores. Podemos considerá-la uma espécie de atualização da proposta de Argan, porque não preconiza a totalidade, ou seja, os conhecimentos não precisam estar todos dentro do sistema para que ele funcione; de fato, a incompletitude do sistema é quase uma premissa. A reescritura de significados é possível a partir do momento que a própria representação estimula a recombinação, e permite recuperar a capacidade de reinterpretação da cidade, um desejo que pode ser assim expresso:

“Trata-se, em suma, de conservar ou restituir ao indivíduo a capacidade de interpretar e utilizar o ambiente urbano de maneira diferente das prescrições implícitas no projeto de quem o determinou; enfim, de dar-lhe a possibilidade de não se assimilar, mas de reagir ativamente ao ambiente. Em outras palavras, o problema consiste em dar à cidade, entendida como sistema de informação (e creio que hoje não se possa entendê-la de outro modo), a elasticidade, a possibilidade de flexão de um sistema lingüístico (...) É essa passagem que a cidade moderna deve realizar, a passagem da concretização, da dureza das coisas, à mobilidade e mutabilidade das imagens. Já na liberdade de interpretar não como imagem não apenas a coisa, mas a imagem dada como coisa, realiza-se na condição humana uma abertura que poderá traduzir-se, em outros planos, também na capacidade de decisões resolutivas, éticas e políticas. (...) De fato, tudo o que se oferece como fato histórico no contexto urbano é interpretável, suscetível de atribuição de valor, objeto de juízo. Interessa-nos menos que àqueles objetos seja conservado ou imposto o valor que lhes é reconhecido pelos especialistas (...) do que a possibilidade de serem continuamente reavaliados, reinterpretados pela comunidade urbana.” (ARGAN, 1993:219-220)

Como dissemos anteriormente, os documentos de apoio aos monumentos tendem a evidenciar o valor histórico; esse valor se fundamenta na inclusão do objeto numa rede de relações – que é ressaltada intrinsecamente pela narrativa em rede, ou hiperdocumento. Conforme Argan,

“(...) uma pesquisa histórica é tanto mais válida quanto mais circunscrita e localizada. O importante é que a pesquisa não leve a isolar um fato ou grupo de fatos, mas a discernir um nó de relações, e que se tenha consciência de que, além da zona iluminada da pesquisa, essas relações se estendem até o infinito.” (1993:58)

Alguns problemas são de ordem operacional, embora de grande influência. Há a necessidade de uma equipe altamente especializada em funções bastante heterogêneas, como para se produzir vídeos, ou música e locuções, além das modelagens tridimensionais e do tratamento de imagens, por exemplo, que não são capacidades facilmente desenvolvidas. Como qualquer arte em equipe, como o cinema ou o teatro, a quantidade de informação necessária para se produzir um hiperdocumento costuma exceder em muito aquela que efetivamente estará representada. Por se constituir o hiperdocumento justamente em recombinações de fragmentos, existem ainda as despesas com direitos autorais, para se reunir representações de documentos que não são de domínio público –, que fazem com que essa ferramenta de expressão seja de produção bastante restrita, mesmo dotada de um potencial de recombinação e releituras extraordinário.

O patrimônio urbano, como vimos no primeiro capítulo, continua sendo muito dependente da imagem para validar sua existência como tal. Essa dependência acontece principalmente por intermédio da fotografia – apesar de podermos enumerar vários casos nos quais o próprio logotipo da instituição associada ao edifício faz referência a algum aspecto arquitetônico do mesmo. O hiperdocumento, tal como o consideramos aqui, possui grande facilidade de incorporar imagens, e mesmo vídeos, e de relacioná-los entre si.

Na verdade, essa facilidade permite avançar na exploração de um problema antigo e sempre presente da arquitetura em geral, tratado em 1948 por Zevi (1994:17-51): a representação do objeto arquitetônico. Em essência, Zevi conclui que cada um dos métodos tradicionais e mais recentes de representação arquitetônica – plantas, cortes (elevações e seções), fotografias, maquetes e filmes (e aos quais acrescentaríamos hoje as maquetes eletrônicas) – aporta contribuições específicas e deixa lacunas a serem preenchidas, daí advindo a necessidade de tomá-los em conjunto para uma compreensão mais completa do espaço arquitetônico. Mais completa, mas nem por isso, plena. Mesmo quando examina o cinema como representação, Zevi reconhece a limitação de trajetos oriunda da falta de interatividade. Poder-se-ia ver nessas considerações um incentivo às representações em realidade virtual, que afinal permitem o controle do ponto de vista de maneiras que nem a presença no espaço o faz, como a possibilidade de sobrevôo. Pensamos, entretanto, que se trata de algo muito mais importante e profundo: a clareza quanto à impossibilidade de plenitude da representação em relação à realidade, aludida na diferença entre “praticar esporte e olhar os outros enquanto praticam, entre dançar e ver dançar, entre amar e ler romances de amor” (ZEVI, 1994:51).

No entanto, como esse trecho imediatamente posterior deixa entrever, as representações exercem um papel importante mesmo para quem ainda irá vivenciar o espaço:

“... onde quer que exista uma perfeita experiência espacial a viver –, nenhuma representação é suficiente, precisamos nós mesmos ir, ser incluídos, tornarmo-nos e sentirmo-nos parte e medida do conjunto arquitetônico, devemos nós mesmos nos mover. Todo o resto é didaticamente útil, praticamente necessário, intelectualmente fecundo; mas é mera alusão e função preparatória dessa hora em que, todos nós, seres físicos, espirituais e sobretudo humanos, vivemos os espaços com uma adesão integral e orgânica. Será esta a hora da arquitetura.” (ZEVI, 1994:51)

Em sua análise de cada um dos meios de representação tradicionais da arquitetura, mais especificamente quando trata das plantas, é interessante notar a preocupação do autor com as interpretações espaciais, um problema por ele enfocado mas não resolvido. Acreditamos que o raciocínio não foi levado adiante porque cada interpretação tem dificuldade de coexistir com as outras numa mesma base. Elas devem ser colocadas lado a lado, o que dificulta a comparação, e cada uma é insuficiente, porque quanto maior a clareza da interpretação, menor tende a ser a quantidade de detalhes do desenho original. A interatividade dos hiperdocumentos permite, ao menos, que sejam condensadas, quando necessário, para serem acionadas sob demanda do leitor, inclusive por elementos parciais. Pode ser o meio a permitir mais facilmente a compreensão e a aplicação da noção de Zevi sobre os elementos substantivos e adjetivos da arquitetura: “(...) a história da arquitetura é, antes de mais nada e essencialmente, a história das concepções espaciais” (1994:27). Além disso, como ele ressalta, todos os outros aspectos, sejam eles sociais, econômicos, artísticos, decorativos, salienta, são importantes para o entendimento destas concepções, mas como extensões, e não como essência. Essas extensões. ou os diversos aspectos em que um edifício pode ser observado além do puramente arquitetônico, certamente encontrarão facilidade de agrupamento e comparação num dispositivo informacional cuja essência são os nós interligados.

 2.2.2. A escala urbana[^]

A representação de objetos arquitetônicos isolados usufrui inúmeras vantagens dos meios digitais. Se considerarmos, como ZEVI (1994:29-50), que o espaço, “protagonista da arquitetura”, é melhor representado pela combinação de diferentes linguagens – como plantas, interpretações e esquemas espaciais, fachadas, fotografias, vídeos e maquetes –, e ainda, que estas diferentes linguagens devem ser dispostas simultaneamente de modo a se complementar sem comprometer as leituras individuais, parece razoável supor que o computador tem muito a oferecer nesse campo.

Essas vantagens da computação não se aplicam da mesma forma à escala urbana, por diversas razões, e uma delas é justamente a dificuldade persistente dos computadores pessoais em manipular, em tempo real, modelos da complexidade de um tecido urbano com algum nível de detalhe. Mesmo para o objeto isolado, um problema já se apresenta: o tamanho físico da tela. Se não chega a ser incontornável nessa escala, é uma séria desvantagem na escala da cidade. Os monitores atuais não permitem uma escala adequada de observação de planos urbanos que possibilite reter a relação com o todo; pelo menos, não com a mesma facilidade com que manipulamos uma planta 1:10000 tamanho A2. Ou, segundo Bueno:

“Considerando [para uma resolução de tela de 640x480 pixels] que a tela seja impressa com sua qualidade máxima, onde para cada pixel temos um ponto, uma tela seria impressa com 5,42 por 4,06 centímetros. Isto oferece um ponto de partida para que possamos refletir sobre quão mais definido é o texto impresso, e porque a leitura no papel pode ser menos cansativa. Se a dimensão da tela pode prejudicar a leitura de textos, ela prejudica mais a de desenhos. Uma prancha no formato A0 com 115 por 80 cm, necessitaria de 22 x 20 telas, ou seja, 440 telas para apresentar a mesma quantidade de informações que temos no papel.” (2001:135)

Outra paradoxal desvantagem para o urbanismo, no caso da modelagem eletrônica, é a precisão do computador. Os dados sobre a cidade são menos exatos que os que envolvem edificações isoladas. Isso torna mais difícil representar justamente os tecidos urbanos: um modelo simplificado de habitações, por exemplo, será pouco convincente; estimativas com modelos mais realistas, convincentes demais, correndo-se o risco do usuário tomar como verdade o que é apenas hipótese. Quando se trata de representar o passado, a imprecisão é ainda maior, muito mais da representação se devendo a conjecturas.

Nos trabalhos do LAURD que tratam de tecidos urbanos ou cidades inteiras, procuramos um leiaute de telas com a menor quantidade de elementos de navegação ocupando a menor área possível, de forma que o máximo do espaço pudesse ser ocupado pela imagem da maquete eletrônica (cf. BARBOSA, 2000). A capacidade de superposição de camadas sobre o modelo garantiu a sua permanência, e portanto a sua utilização como referência constante. Por outro lado, optamos pela representação apenas da projeção dos quarteirões e dos elementos urbanos mais significativos – elementos sobre os quais possuíamos informações mais precisas. A redução de elementos na representação também permitiu uma velocidade maior de produção das imagens, adequada à capacidade de processamento disponível, uma preocupação vital quando o objeto representado é dotado de grande complexidade, como no caso de tecidos urbanos, e mais ainda quando a topografia é muito irregular, como no caso da cidade do Rio de Janeiro, mesmo no período colonial. A decisão em prol de uma maquete simplificada foi corroborada pela perspectiva em vôo de pássaro adotada nos trabalhos, para que se pudesse ter uma visão de conjunto, em lugar da imersão no espaço.

A intenção de conjugar diferentes linguagens de representação com a modelagem, que permitiria a complementação com detalhes a partir da apresentação de fotografias e gravuras, também foi responsável pela adoção de uma renderização simplificada, fugindo à tendência ao fotorrealismo que acompanha esse tipo de recurso.

No entanto, as forças (economia, religião, defesa, política, entre outras) que definem a forma da cidade estão freqüentemente descritas em textos lineares tradicionais, e a decisão pela maquete eletrônica com as camadas de informação – recurso típico do hipertexto – permite confrontar essas informações com uma interpretação espacial das mesmas.



[1] No original: “... a modern version of non-linearly organised materials. That is, they are electronic documents with direct access to information of diverse form by means of window presentation and mouse clicking on important words or other displayed information.”