DISSERTAÇÃO EM URBANISMO - PROURB-FAU-UFRJ

A representação do patrimônio urbano em hiperdocumentos: um estudo sobre o Palácio Monroe > Capítulo 1 - Representação do Patrimônio Urbano

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Referências Bibliográficas - Patrimônio

1.4. Conclusão

A palavra “patrimônio” está relacionada, em primeiro lugar, ao conjunto de bens herdados. O patrimônio urbano, por extensão, seria composto pelos bens herdados pela cidade, ou o conjunto de bens de valor para a população de uma cidade. Argan esclarece que a tarefa do urbanismo “não é projetar a cidade do futuro, mas administrar no interesse comum um patrimônio de valores, econômicos, por certos (...), mas também históricos, estéticos, morais, coletivos e individuais (...) o urbanismo é a ciência da administração dos valores urbanos.” (1993:233)

O patrimônio urbano pode ser considerado uma alegoria – representação de uma idéia abstrata –, ou, mais especificamente, como uma representação de valores. Esses valores, a partir de Riegl (1984) e Choay (2001) podem ser: antigüidade, histórico-documental, rememoração intencional, uso, artístico/estético e novidade. São todavia flutuantes, ou seja, além de variar conforme o observador, variam principalmente segundo a comunidade e o período nos quais estão inseridos, além de eventualmente concorrerem entre si. Apesar disso, a existência desse conjunto de bens se baseia na possibilidade de transmissão de conteúdos simbólicos no tempo e no espaço – no tempo, para as sucessivas gerações de habitantes; e no espaço, entre os diferentes grupos sociais que compartilham a cidade. Dessa forma, estão em permanente negociação, na cidade, tanto o conteúdo atribuído a cada elemento do patrimônio pelos diferentes agentes sociais como os próprios elementos escolhidos para representar este conteúdo. Em todo caso, o conjunto de bens considerados patrimônio reflete uma determinada visão da comunidade de si mesma.

Uma das razões para a alteração dos valores de um edifício do patrimônio dado é a disponibilidade de informações sobre esse bem. Observamos que a representação do patrimônio constitui uma forma de aumentar essa quantidade de informações, e, portanto, de alterar o valor do patrimônio representado. Na verdade, embora não seja uma relação matematicamente linear, sabemos que a maior quantidade de informações ou de vivências associadas a uma edificação do patrimônio tende a aumentar o desejo de preservação desta. Enfim, a escolha de preservação é também uma opção de cunho político, que interfere no projeto que os habitantes têm para sua cidade ao mesmo tempo que o revela.

Uma espécie de meta-valor do patrimônio, ou valor que fundamenta os outros, é o valor de autenticidade. Na sociedade laica industrial, portanto dos objetos reproduzidos em massa, a autenticidade substitui a categoria do sagrado como elemento predominante para a composição do patrimônio. Autêntico ou sagrado, o objeto é dotado de uma aura única e irreproduzível. No entanto, entendemos que a autenticidade também é um valor que pode ser alterado conforme a disponibilidade de informações e de envolvimento com o patrimônio; pode ser criada, enfim, desde que, por um lado, fiquem claras desde o começo as regras do jogo de simulações e reproduções, e, por outro, que a comunidade possa se apropriar do patrimônio em questão, para desenvolver novas relações com ele. No caso do Monroe, por exemplo, uma reconstrução baseada em documentação histórica, com as imprecisões devidamente anunciadas, poderia ser aceita como uma representação desse patrimônio que não mais existe: mais do que isso, poderia vir a ser um novo patrimônio.

Por outro lado, temos as especificidades do conceito de patrimônio para a sociedade brasileira, que devem ser levadas em consideração. A narrativa patrimonial carioca, por exemplo, apenas recentemente valorizou os remanescentes do ecletismo da Primeira República. A historiografia da arquitetura ainda carece de estudos sobre esses edifícios. Por outro lado, a ameaça perene da perda e do desaparecimento são reais em nossa sociedade. Não temos a melhor das relações com a memória, menos ainda com a história. Sem guerras ou desastres naturais de grande porte, ou mesmo incêndios graves, a cidade do Rio de Janeiro ainda assim promoveu grandes alterações em sua superfície. É preciso pensar nosso patrimônio também a partir dos vazios e das mudanças.

Assim sendo, que valores poderiam ser recuperados por uma representação do Monroe? Face à possibilidade de uma reconstrução, que valores seriam recuperados por ela? Não são questões simples. Uma vez libertados do dilema da autenticidade e cientes do papel do patrimônio como representação, percebemos que não faz diferença o Palácio Monroe ser reconstruído ou não. Importa, isso sim, que o conteúdo simbólico a ele atribuído e ainda (ou novamente) requerido possa estar presente na sociedade. Além disso, em se tratando de uma sociedade apreciadora de mudanças, estas devem ser incorporadas à representação. Por outro lado, como se trata também de uma sociedade na qual as imagens desempenham papel fundamental, entendemos que deverão se basear principalmente em imagens essas representações.

Como notamos que o acúmulo de informações contribui para a assimilação do patrimônio, entendemos que mesmo que se trabalhe de forma a convencer quem quer que seja a reconstruir o Monroe, esse convencimento deve ser feito baseado em documentos que aumentem a quantidade de informações disponível sobre o edifício. No limite oposto, a existência de outras representações do edifício podem vir a convencer justamente do oposto: de que nada mais necessita ser dito sobre ele, muito menos através da dispendiosa reconstrução no raro solo urbano.