Caderno 8

16 de março de 1971
Estou tão contente: Meu namorado me chamou para morarmos juntos!
Ele então gosta de mim! Pois para se querer morar com uma pessoa, é preciso gostar desta pessoa.
Ele propôs que cada um de nós pagasse e metade do aluguel. E ele é um rapaz de responsabilidades, pois quando eu disse , e se eu ficar gravida? Ele respondeu que a responsabilidade é dele também , e que não me deixaria sozinha . Ele é um amor! É tão carinhoso e terno! Ele me tratava com tanta ternura! Eu estou gostando muito dele! Oh! Como é bom ter alguém que gosta da gente , e querer morar com agente! Ele não sabe ainda que eu não sou virgem.
Eu falei: Bem, o nosso filhinho vai ser loirinho de olhos azuis, parecido com o pai! E dei um abraço nele. Então ele falou, carinhoso: "não, ele vai ser parecido com a mãe, que é a coisa mais linda que eu já vi!"
Eu senti uma emoção diferente , uma alegria comovida!
Já faz um mês e dez dias que nos conhecemos, e já saímos 7 vezes.
Eu já estou planos de como será bom morarmos juntos! Eu vou me sentir muito mais protegida , amada, e segura.
Eu vou poder logo ficar esperando o bebê!
Hoje é 16 de março. Ele quer que aluguemos um apartamento de Cr$300,00. O ordenado dele é Cr$700,00. Ele, o Hélio , é um amorzinho.
Não estou com receio de reação dos meus pais, e ainda mais que meu irmão mais velho mora com uma moça, sem casarem.
Eles vão ter uma surpresa!
Eu vou ter meu lar! Graças a Deus , vou ter o meu companheiro e o bebê!
Será melhor moramos justos , do que eu morar sozinha e ele só me visitar de vez em quando , pois ele se sentirá mais apegado a mim , e eu a ele. E será uma experiência!
Eu aprenderei a cozinhar .
Estou numa expectativa!
No sábado comprarei o cobertor e três camisolas de inverno ( talvez um pijama) . O cobertor deva ser uns Cr$60,00, e as três camisolas , uns Cr$50,00.
No fim de março terei Cr$280,00 e no fim de abril, mais Cr$300,00, que serão no total Cr$580,00.
Comprarei a cortina e moveis de quarto. Sugerirei que o Hélio compre a poltrona , televisão e copa fómica. Ou perguntarei o que ele prefere comprar . Mas eu preferia comprar a mobília de quarto.
O Hélio falou que eu sou a primeira moça que ele convida para morar com ele.
Daqui a 1 mês e meio, poderemos alugar! No início de maio!

22 de março/1971
Não suporto mais! Não suporto mais mesmo, morar neste Pensionato ou qualquer outro Pensionato. Estou cheia! Cheíssima. E agora , que poderei sair daqui, aumenta a insuportabilidade! Não tenho vontade de conversar com ninguém, e sobre nenhum assunto. Na hora das refeições, é aquele ajuntamento de mulheres em uma só mesa, e falação e barulhada .
Aqui, em todo lugar está ruim : no quarto, na sala , na copa. Estou deslocada não tenho vontade de fazer amizades, pois são raras, ninguém estima ninguém. E moro a cinco anos em Pensionato!
Chega! Quero Ter minha casa, o meu lugarzinho para cuidar .
Eu já gostei de morar em Pensionato, faz tempo já que estou ansiosa para alugar um apartamento. Só ficarei até o fim de abril!
Falta 1 mês e uma semana1
O Hélio convidou-me para morarmos juntos, mas faz 10 dias que ele não dá notícias, e eu já estou aflita. Eu o acho tão carinhoso e terno! Eu estou tão preocupada com ele!
Ó meu Deus , permita que de tudo certo para nós! Eu já sofri tanto meu Deus!
Eu não agüento mais ficar na expectativa esperando um telefonema!
Não existe uma moça aqui que tenha uma conversa interessante. Como as mulheres são chatas Credo! Como são invejosas e como contam vantagens!
Hoje é dia 22 de março.
Eu mudarei sem falta no fim do mês de abril! Eu preciso esperar até o fim do mês de abril, porque preciso Ter o dinheiro da mobília de quarto.
O Hélio e eu dividiremos as despesas . Não agüento mais a expectativa ! Eu vou dedicar os nossos dias para faze-lo feliz.
Eu vou lavar as camisas e cuecas dele e vou preparar comidinhas gostosas para ele.
Eu que tinha sempre medo de cozinha, estou agora animada. Vou continuar trabalhando e, logo depois vou esperar um bebê!
Eu não quero esperar mais. Eu não esperarei mais!
Vou obturar alguns dentes posteriores, pois li outro dia, que a mulher grávida não deve ter cáries, que pode prejudicar a criança. Amanhã irei ao dentista.
Quando eu penso em todas as coisas bonitas que vou comprar para minha casa, fico tão contente e animada!
E tenho o apartamentinho, poderei estudar, ler a vontade, escrever. Aqui no Pensionato fica-se bitolada, é-se obrigada a conviver com mentalidades ôcas, é-se obrigada a ouvir assuntos maçantes, a presenciar só o egoísmo, a ver pessoas só preocupadas consigo mesmas.
Eu não gosto de comentar meus assuntos pessoais, de namorado, amado. No trabalho também raramente comento.
Sei lá, eu acho que a maioria das mulheres é invejosa. Até eu sou também.
Eu não estou imaginando coisas. Elas demonstram pelos comentários e atitudes.
Ó Céus, este mundo é um mundo de tantos chatos! De tantas chatas, principalmente!
Eu não vou mais ficar aqui! Eu mudo daqui a um mês! Com o Hélio ou sem o Hélio.
Será uma boa experiência morar com um homem. É como casados.
Eu quero fazer um curso de administração pública! Ajuda-me a consegui-lo meu Deus!
Eu quero sempre poder manter-me e a eles , até crescerem.
O Hélio também vai continuar a estudar. E isso é muito bom.

23 de março/1997
hoje: marcar hora com a dentista
Aumenta a minha inteligência, fé, entusiasmo, para eu tenha realizações nos meus caminhos, ó Senhor!
Março
23 – 24 – 25 – 26 – 27 – 28 – 29 – 30 – 31

Abril
1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 – 11 – 12 – 13 – 14 – 15 – 16 – 17 – 18 – 19 – 20 – 21 – 22 – 23 – 24 – 25 – 26 – 27 – 28 – 29 – 30.

Hoje: tomar uma vitamina de abacate na hora do almoço, e comprar um pacotinho de bala. Não ir almoçar e nem jantar no Pensionato. Ir na dentista depois do trabalho. Depois ir pedir o currículo do curso de Administração Pública, e o horário , na faculdade.
Eu hei de ser técnica de Administração!
E em junho (início) ficarei grávida do Hélio.
Poderemos alugar o apartamento no início de maio.
Eu tenho 33 anos. Em maio já serão 33 e meio! Quase 34!!!! Meu Deus!! Como estou perto da menopausa! E eu queria 5 filhos! Só posso Ter 3 ou 4.
Ó meu Deus! E se eu demorar a ficar grávida?


  1. ½ - 34 – 35 – 36 – 37 – 38

Eu vou fazer uns manjares e pudins para o meu maridinho, bem deliciosos. Eu vi hoje no pão de açúcar, de vários sabores.
Eu me dedicarei a meu queridinho, tenho certeza.

25 de março/1971
Iniciei ontem o tratamento dentário. Ficará em Cr$420,00!
Foi ótimo eu Ter ido ao dentista, pois dentes cariados , prejudicam o bebe, quando a mulher está gravida e não se pode cuidar dos dentes durante a gravides, conforme li numa revista abalizada outro dia.
Em maio ou junho eu poderei ficar grávida!
Falta só um mês!
O Hélio está desaparecido, mas sei que ele vai me procurar.
Ele está desempregado, e deve ser por esse motivo que ele não tem aparecido. Se ele não vier na 6Ί feira, eu vou passar u telegrama para ele.

12 de abril/1971
Finalmente ontem mudei para o meu apartamentinho!
Senti uma felicidade tão grande ontem, trazendo minhas roupas e demais objetos para esse cantinho meu!
Hélio ajudou-me a trazer a mudança em seu Volks. E a noite dormimos juntos. Mas estávamos os dois cansados. Não tivemos relações , pois o preventivo dele rasgou, e eu ainda nem recomecei a tomar os comprimidos.
Eu estou com uma feridinha no útero , e a cauterização fica em Cr$300.00. E é preciso curar essa feridinha para poder ficar grávida. E não sei se recomeço a tomar os comprimidos anticoncepcionais, pois li outro dia , que para conceber com perfeição, os órgãos em completa ordem, é necessário esperar 3 meses depois que para de tomar os anticoncepcionais , para engravida-se .
Eu estou com 33 anos e meio. Se recomeço a tomar os comprimidos , com certeza , teria que tomar uns 4 meses, e depois esperando mais 3 meses, são mais meio ano. E se terminarmos o romance , o Hélio e eu, eu poderia demora a encontrar outro rapas bom, que gostasse de mim e se responsabilizasse pelo acontecimento, pois ele falou que jamais abandonaria uma moça que ele fizesse engravidar.
Encontramo-nos desde 5 de fevereiro . Faz dois messes e meio.
Eu pedirei inspiração a Deus.
Primeiramente é urgente cauterizar a feridinha no útero.
Inspira-me, senhor , que tanto tem me ajudado!

4 de maio/1971
Quase nem acredito que estou finalmente no meu apartamentinho!
Um desejado apartamentinho há tanto tempo!
Há uma pela mobília de quarto, comprada a prestação (30 pagos). A cama é de casal.
Há um cobertor azul clarinho novinho , lindo sobre a cama.
E tenho o meu amorzinho , um loirinho , de quem eu gosto e vem me ver uma vez por semana. Acho pouco, mas ele estuda a noite, e tem outros afazeres para com a família.
Faz 3 meses amanhã que nós nos conhecemos.
Já dormimos 3 noites juntos, ,as só tivemos uma relação sexual, por motivos de menstruação minha.
E eu arrumo a casa, e imagino mil modos de embelezar o apartamentinho para ele.
Como ainda não tive dinheiro para comprar travesseiros, temos dormido com fronhas cheias de roupa, o que é muito duro
Ele reclamou, e eu resolvi comprar meio quilo daqueles pedacinhos de espuma e costurá-los dentro de uma fronha. Fica bem baratinho, me disseram.
Estou mesmo tão feliz !!! Não sinto medo enm solidão, graças a Deus. O Hélio é tão carinhoso e atencioso !
Tem um coração tão bom, e é terno. Ele falou entusiasmado, que comprará esta semana, a cortina para a janela.
Ganhei uma mesa lindinha, os banquinhos para quando eu puder pagar. É difícil expressar a felicidade em palavras. Eu só fica admirando os móveis, o banheiro, a pia, tudo! É uma emoção tão agradável !E fico querendo que tudo fique cada vez mais lindo ! Me dá vontade comprar um punhado de coisas que embelezam a casa !
Me dá vontade de comprar tapetes de borracha para o banheiro, umas palhas bem bonitas, dá vontade de pintar o armariozinho do banheiro, de trocar o espelho, que está feio e enferrujado. Me dá vontade de ver perfeição em tudo ! eu comprei um radinho de pilha tamanho grande, muito bonitinho, e quando estou aqui no apartamentinho, estou sempre com ele ligado.
Comprei também um ferro automático e um fogão lindinho, a prestação. Só que o fogão ainda não veio. E estou louco para vê-lo ali no cantinho perto da pia. E eu, que sempre tive medo de cozinha, estou ansiosa para começar a cozinhar, isto é, começar a aprender a cozinhar. E tenho uma vontade de fazer uns doces bem gostosinhos para Hélio saborear.
Nós tomamos banhos juntos, de chuveiro, e é delicioso. Ele passa sabonete em mim, e me enxuga, e eu passo sabonete nele. Depois viemos para a cama, e nos abraçamos e beijamos, e conversamos, e etc, e durmimos juntinhos. É tão bom dormir bem juntinho de quem se gosta!
Muito obrigada, meu Deus, por essa felicidade!
Eu já sofri muito por amor, já tive muitas decepções.
Ó meu Deus, proteja-nos, abençoa-nos!
Estou tão feliz, meu Deus!
Quero fazer felizes o meu querido companheiro, e as criancinhas que logo hão de vir!
Se eu ainda estivesse esperando um marido, a esta hora já estaria neurótica, revoltada, frustrada.
Que maravilha eu ter libertado o eu do jugo da sociedade, da opinião e interferência dos outros!
E eu já não suportava o Pensionato mais.
Lá, ninguém pensa em fazer alguém de lá feliz.
Já era mais do que tempo de ter a minha casinha!
33 anos e meio, eu tenho!

Mesma data
Quando receber, comprar papel de parede, estampado ou listrado (ver a estampa mais bonita) e pregar com durex, atrás do guarda-roupa. Preguear o papel. Colocar o guarda roupa como divisão entre o quarto e sala.
Hoje, ir buscar a mesa com os banquinhos .
Comprar papel (bem grosso, que não deixa passar a claridade) diferente, de uma cor só, preguear também, e prega (com durex ou taxinhas, percevejos) no quadrado de vidro, isto é , no quadrado que contém o vidro, pois, para clarear o quarto, bastará abrir a janela.
Isso é uma coisa provisória, até eu poder comprar cortinas de pano.
Quando o Hélio for lá, na 6Ί feira, quero que esteja tudo arrumadinho, bem bonitinho.
pagamento precisa sair até 5Ί feira sem falta!
Eu irei depois das 5 (no dia que eu receber), nas lojas da rua direita, procurar deste papel. Deve ser barato.
Hoje a noite, medir a largura e comprimento do guarda-roupa. Comprar o dobro da largura, por causa das pregas.
Medir também o vidro e a janela da frente.
Ver se acho um travesseiro barato, de uns Cr$5,00 e comprar.
Comprar meio quilo de espuma (quadradinhos) colocar dentro de uma fronha e costurar. Costurar dentro de outra fronha (aquela fronha que caiu tinta nela).
Comprar do papel comum, colorido, para colocar atrás do guarda-roupas .
Comprar amanhã depois das 5 horas, nas lojas Brasileiras ou adjacências.

5 de maio/1971
Ontem a noite troquei os moveis de lugar, colocando o guarda-roupa para separar a sala do quarto.
Tirei a tinta do quadradinho de madeira do relógio e outros trechos de madeira.
Vai ficar um amor a salinha.
quarto está ótimo, só faltando a cortina da janela da frente , que pegará toda a parede. Vai ficar lindo!
Depois que arrumei bastante, sentei-me comodamente na minha cama larga, e comecei a ler um ótimo livro ("A Conduta Humana", de Adler), enquanto o rádio transmitia música.
Acho que não compararei mais papel. Tem panos baratos, retalhos que eu poderia comprar.
Como eu virei o guarda-roupa, ontem, este tapa bastante a claridade do vidro que da para o corredor
Hélio comprará, a cortina da janela da frente, que pegará toda a parede.
Só faz falta a cortina divisória da sala e quarto, que tapará as costas do guarda-roupas.
Falta chegar o fogãozinho, e eu comprar o gás.
Quero colocar depois, um quadrado de encerado de borracha em baixo do fogão, para não sujar de água o assoalho.
Eu não canso de admirar as coisas do meu apartamentinho.
Comprarei aos poucos, um punhados de coisas!
Eu estou tão contente!

6 de maio/1971
Hoje pagarei uma prestação que vencerá no dia 10. E reclamarei do fogão, que ainda não entregue.
Depois das 5 irei no centro e comprarei espuma para eu mesma fazer os travesseiros.
Estou tão contente!!
Aos poucos irei comprando tudo!
E quando eu estiver então com o meu bebezinho no braço! Eu quero um parecidinho com o Hélio, loirinho de olhos azuis , outro parecidinho comigo. Os outros: um com ele, um comigo.
Eu gosto muito do Hélio, meu companheiro, meu namorado , meu amado!
Ele parece gosta também de mim, pois encontra-se comigo toda semana.
Eu satisfarei as necessidades espirituais!
Eu não terei mais inveja de nenhuma mãe, de nenhuma mulher grávida.
Ó meu Deus, que eu fique grávida urgente!
Ouvi pelo rádio, que a Secretaria de promoção social construirá até 1972, mais de 200 creches. Que bom! Terei onde deixar meus filhinhos , pois pretendo continuar a trabalhar.
O Hélio é tão carinhoso! E inteligente.

Mesma data
Como estou feliz, meu Deus!
Acabei de chegar da cidade agora.
Saí às 5 do trabalho, e fui ao centro comprar os pedacinhos de espuma para fazer travesseiros. O dinheiro só deu para um travesseiro.
E comprei um cinseirinho muito bonito para o Hélio. O Hélio é o meu maior estimulo , pois tudo que planejo aqui para o apartamento é pensando nele.
Agora vou colocar os pedacinhos de espuma dentro de uma fronha e costurar. Assim, amanhã, teremos um travesseiro macio!
Que bom! Amanhã, ele deverá vir me ver, e dormiremos juntinhos, e nos amaremos!
Eu queria logo ficar grávida!
Não tomarei comprimidos!
É tão bom sentir essa segurança!
Que bom que sou funcionária pública, e posso engravidar, sem o perigo de me mandarem embora.
Eu já consegui 3 coisas que desejava intensamente: Ter um emprego seguro, alugar um apartamentinho, e Ter um companheiro de quem eu gostasse e gostasse de mim.
Só falta eu Ter um bebe!
Muito obrigada, meu Deus!
E que eu fique logo grávida!
Já estou com 33 anos e meio, quase 34! Preciso engravidar-me logo, senão breve será tarde demais.

7 de junho, 1971
Ando com uma inveja tão grande de mulheres que vejo esperando nenê! Me dá uma raiva! Uma antipatia! Uma inveja! Não gosto de ver ninguém com seus filhos, não gosto de ver nenhuma mulher ou homem falar "meu filho" .
Até me dói .
Hoje apareceu uma mulher bem vestida, com o seu bebe novinho, na seção onde trabalho, e eu nem fui ver. Continuei trabalhando.
Eu acho que nenhuma mulher devia deixar de ser mãe, só porque não casou. Se a mulher pode sustentar e criar uma criança , ela deva Ter seu filho!!!!!! Que mande os outros as favas. Não sei como existe ainda tanta mulher que tem medo da sociedade. Medo dos outros. Ora bolas!
Como estou feliz por Ter conseguido livra-me do seu jugo!!!!
E meus filhos serão livres também
E como é bom Ter a vida interior e particular bem guardada dos olhares curiosos dos outros! E como é bom não permitir o palpite de ninguém.
E como é bom morar sozinha !
É maravilhoso Ter esse apartamento só meu!
Aqui posso ficar sossegada , sem ninguém para perturbar meu sossego, minha paz, ou meus aborrecimentos . Posso até chorar sem ninguém saber.
Há um mês e 20 dias estou morando aqui!
Há um mês que o Hélio não vem aqui!
Já fui na escola dele e no trabalho, saber o motivo. Quase terminei na 6Ί feira, mas ele disse para eu Ter paciência , que ele telefonaria para mim, e que ele estava muito ocupado com estudo ( está fazendo madureza a noite). Ele disse que quer ganhar muito dinheiro.
Ele ficou zangado por eu Ter ido lá no banco onde ele trabalha. Prometi a mim mesma que nunca mais vou lá.
Eu separei - me dele com uma raiva tão grande!
Já tinha até resolvido telefonar para outro rapaz .
Mas depois acalmei-me , e resolvi aguardar mais um pouco.
Eu quero que ele seja o pai do meus filhos.
Eu quero ficar grávida logo! O mais depressa possível! Estou com 33 anos e meio já!
Não posso esperar mais!
Eu falei para o Hélio que já estou tomando os comprimidos anticoncepcionais , mas não estou não.
Estou ansiosa para ver a minha barriguinha crescer, crescer.

5 de julho/1971
Ó meu Deus, que vontade de ter minha família! O meu companheiro e meu filhos!
Só o senhor Deus , sabe a angústia que eu vivo!
Vejo angustiada o tempo escoando rápido.
Preciso me enformar sobre produtos de beleza que não deixe a velhice chegar logo.
Outro dia li que a prisão de ventre intoxica o sangue e faz envelhecer mais rápido.
Estou comendo bastante frutas, que bom. Mas se não fizer efeito diário, perguntarei a uma funcionária de onde trabalho o nome do remédio que ela usa.
Vou comprar no próximo mês um remédio que é ótimo para retardar a velhice.
Que bom que ainda posso ser mãe!
Tenho levado a vida tão vazia! Quando saio do trabalho não tenho vontade de vir para o meu apartamentinho.
É claro que prefiro mil vezes morar aqui sozinha nesta apartamentinho, do que no pensionato, mas sempre que imaginei o apartamentinho, imaginei o companheiro que viesse ma ver sempre, e o bebe os bebes.
Mas o meu companheiro anda desaparecido por causa dos estudos (eu sei que é) eu não tenho estímulo para nada.
Só um companheiro mesmo, é que dá estímulo para a mulher.
E o meu ventre , ainda nem gerou nem um ser!
Por que desprezei tão ótimos rapazes que que se interessaram por mim?
Eu não procuro mais outro amor, porque o Hélio é muito bom, carinhoso, atencioso, trabalhador, e eu gosto dele. Se eu sair com outros, pode atrapalhar, pois ele pode surgir de repente. Ele disse: você precisa Ter paciência ! Eu vou telefonar para você. Vamos passar algum tempo sem sair, depois continuaremos a sair novamente.
Até quando esperarei?
Porque num procurei homem rico? Sou boba mesmo.
Tem hora que quase não suporto a inveja que sinto das mulheres grávidas ou com seus filhos. Ou falando dos seus filhos.
É um sofrimento que só quem passou por ele , sabe.
É muito melhor ser uma solteira mãe, do que uma solteirona! É horrível, horrível, horrível!
Irei sempre a Biblioteca pública, ler livros sobre a saúde, como conservar a saúde, etc...

7 de julho/1971
A certeza é tanta! Até no fim do ano estarei grávida!
Estou tão confiante no meu criador!
Ele me ajudará a transformar em realidade, essa aspiração de ser mãe, de Ter um bebezinho meu , e de mais alguém . Resolvi não pedir a intermediários, e sim diretamente ao meu criador, que tem o poder absoluto nas mãos. Por culpa minha, não realizei a mais tempo essa necessidade psicológica.
Desprezei muitos candidatos, por muito amor próprio perdi outros, por negligencia, volubilidade, outros.
Não há motivo de desesperar-me, pois tenho uma certeza tão grande de que bem antes de dezembro já estarei grávida!
Acho que até setembro ou outubro.
Estou com esperança de que o Hélio me procure este mês ou em setembro, quando ficará livre de 3 matérias.
Quero preencher minha casa de crianças, quero ser bem útil, Ter uma vida bem ocupada, sentir que sou necessária.

20 de setembro/1971
Sozinha estou morando e é muito bom.
É bom Ter as minhas coisas, arrumar o meu apartamentinho, mas, depois que chego do trabalho, tomo banho e me alimento, invade-me uma inquietação ou nervosismo, por não Ter nada para fazer, alguém para conversar.
Se o ordenado desse, gostaria de continuar estudando Inglês.
Não tive paciência de esperar o Hélio. Arranjei outro companheiro.
E um dia quando o Hélio me telefonou eu lhe disse que já tinha outro alguém.

27 de setambro/1971
O que fazer para ganhar mais dinheiro?
Ando tão nervosa! E preocupada.
Vários são os motivos:


  1. Meu companheiro tem estado adoentado

  2. Minha situação financeira.

  3. Ainda não ser mãe.

Se aparecesse outro concurso para eu ganhar mais!
Não tenho me alimentado suficientemente.
E se eu tivesse um filho, meu ordenado só , dará para criα-lo? E eu queria pelo menos 3 filhos! E já tenho quase 34 anos!
Oh meu Deus! Ajuda-me!
Que nervoso, meu Deus!
Como será que está passando o meu amor?
Estou tão aflita!
Já chorei várias vezes, nesses dias.

28/setembro/1971
Amanhã:
Passar na Cultura Italiana, e pedir informações sobre o curso.
Preciso estudar a noite! Pelo para me de para me distrair, preencher o tempo enquanto não chega o bebe.
Ando num nervosismo e aflição!
Graças a Deus , agora estou calma.
Primeiro motivo do nervosismo: meu companheiro que esta sumido, e estava doente. Não sei se ainda está.
Ontem a noite chorei muito.
E rezei mais uma vez. Então pareceu-me ouvir uma voz na consciência, como se um espírito estivesse me falando: " Acima de todas as aflições do mundo está a luz de Deus".
E eu entendi que acima das guerras, dos problemas humanos, doenças, humanas, brilhava a luz de Deus, o poder de Deus, superior a tudo, a nos dar a força necessária, a luz que vence todas a aflições deste mundo. E que eu terei até o fim da minha vida, outros momentos aflição, maiores até que o atual, e que precisarei da luz de Deus para me ajudar a suportα-los e a vencκ-los.

Ano de 1972

11 de agosto de 1972 – São Paulo
De repente me deu uma vontade de conversar com o senhor, meu Pai Celestial, e de ouvir a Sua voz conversando comigo. Olhei o mundo hoje, e uma angústia apareceu em mim. Uma tristeza.., e chorei, pensando no senhor, meu Pai, e supliquei a vossa ajuda. Converse comigo, meu Pai amado, meu eterno protetor!
Fale para mim tudo o que eu preciso escutar no dia hoje!
Faça a minha alma atenta e uma ouvinte perfeita! Fale comigo, meu Pai, que choro agora sem saber porque.
E que eu entenda tudo como é urgente entender!
E que eu levarei aos meus irmãos a Vossa mensagem divina!
Eu quero escutar-vos, meu Pai, para ter forças na caminhada deste mundo, uma caminhada que no dia hoje parece-me eterna e desalentada. Olho as tarefas repetidas de todo dia e a saturação me envolve, vendo monotonia e aridez.
Eu quero sentir por momentos a Vossa Palavra!
Meu Pai, dá-me uma palavra de esperança, acende uma luz no meu coração.
A viagem é longa, e eu preciso ver novas paisagens para vencer o cansaço da jornada!

de outubro/1972
Eu preciso continuar estudando, tirar o diploma do Curso Superior iniciado! Preciso, para ganhar mais. Meu ordenado é muito pouco, mal dá para eu pagar este apartamentinho onde eu moro sozinha, e alimentação.
Eu tinha planejado ter um filho mesmo sem estar casada ou sem estar morando junto com um companheiro. Mas tenho pensado e cheguei à conclusão de que eu não quero um filho sem pai, eu não quero dar essa infelicidade a um filho, eu não posso dar menos do que recebi de meus pais, eu quero um companheiro que dê seu sobrenome ao meu filho ou filhos.
Além disso, eu não tenho condição econômica para criar sozinha uma criança. Eu teria que estar ganhando, no mínimo, mais de Cr$ 400,00 mensais, para deixá-lo numa boa creche, pois teria que continuar trabalhando. Uns Cr$ 150,00 para a creche, mais uns Cr$ 100,00 para o táxi, ao levá-lo de manhã, pois não teria coragem de deixá-lo com empregada, num apto tão alto, e empregada sairia muito caro para mim.
Ó meu Deus! Ainda bem que Vós me mostraste tudo isso.
Mas eu já vou completar 35 anos daqui a alguns dias!
Tenho tão pouco tempo para encontrar um companheiro, um marido ou um amante que queira ser pai!
Eu preciso completar o Curso Superior iniciado1
Não sei se viverei até os 60 anos ou mais, e se eu não aproveitar agora, meus últimos anos de chance, no futuro apssarei necessidades. Não devo querer a vir sofrer por culpa própria, por preguiça de estudar, de fazer um pouco de sacrifício, por achar falta de vocação. Eu não tenho vocação para escriturária também, mas faço meu trabalho bem feito.
Analisei todas as profissões e acho que vocação mesmo não tenho para nenhuma.
O problema agora é: estudar com que dinheiro?

Mais tarde
É muito triste um filho sem pai. Em todos os lugares onde for se registrar, verão que nem sabe quem é o pai. Como pude pensar também, que era só manter uns 2 meses de relações sexuais com um rapaz, para ficar grávida e ele registrar a criança. O rapaz poderia não querer registrá-la, duvidando ser ele o pai.
É preciso mesmo casar ou morar junto. Será que vai ser difícil encontrar um homem para morar junto comigo? Um homem de quem eu goste, é claro, e que goste muito de mim.
Será que um homem se casará comigo, mesmo eu não sendo virgem?
Não adiantará eu só vir a ter boa situação econômica. O importantíssimo é ter um companheiro morando comigo.

2 de novembro/1972
Eu prometi não escrever mais. No meu diário só existe dor. No mundo só existe a dor?
Há uma dor outra vez no meu coração. Ontem, eu chorei muito e as pálpebras amanheceram inchadas, bem inchadas hoje, e nem a pintura disfarçou. Eu entrei no local de trabalho bem cedinho, e a dor continuava.
Desde ontem, e de tempos em tempos cada vez mais diminutos me dá uma vontade de morrer! Estou chorando de novo. Ontem à noite rezei também e disse ao meu anjo da guarda que ele se esquecera de mim.
Estou tão infeliz, tão desesperada!
Não vejo solução para minha vida. Dias atrás, fiz 35 anos.
35, meu Deus! E não tenho nada! Não tenho um esposo, ou um companheiro infeliz do mundo! Não adianta eu querer consolar-me por parecer ter só 25 ou 26 anos.
Não adianta rapazes de 23 anos interessarem por mim, e me acharem bacana. Eu sei que sempre aparece outra na vida deles, eu sou sempre a deixada. Aqueles que me amaram quando eu era mais jovem, eu desprezei, eu não dei valor, eu não enxerguei este futuro presente agora nos meus dias sem esperança. Mas eu não podia forçar meus sentimentos, eu não gostei deles, continuei procurando e esperando e apareceram outros, muitos outros, e eu amei os outros.
Mas os outros nunca me amaram. Os outros só trouxeram dores para a minha alma tão sofrida e desalentada. E as dores continuam se sucedendo. São umas depois das outras, são como os dias, se sucedendo sempre, sem nunca ter um fim.
Choro, estou chorando de tristeza e dor, por saber as dores sempre me esperando cada dia, e cada vez aumentando mais, desesperando mais, cada vez surgindo mais forte a vontade de morrer!
Tantos morrem todos os dias, porque eu não sou escolhida para morrer logo? Já estou me vendo com 40, 45, 50 anos, sozinha, sem filhos, sem companheiro, sem nada!
A cada ano os dias estarão mais vazios, mas entediantes e sem alegria, eu irei murchando, a cada ano, o rosto enfeiando, envelhecendo, ficando feia, feia, feia. E nenhum homem olhará mais para mim, nenhum coração me desejará, nenhum ente quererá me abraçar!
Que coisa horrível, meu Deus!
Salva-me, meu Deus!
Conheci um rapaz muito simpático há duas semanas. Ele me telefonou três dias, saímos para passear duas vezes de carro. Ele era tão carinhoso, me beijava com tanto carinho.
Levou-me num lugarzinho romântico, bebemos alguns drinks. Mas ele me disse no primeiro encontro, que tinha uma namorada. Mas nos outros encontros disse que terminaria com ela. No último encontro eu falei que não era mais virgem.
Continuou a tratar-me com carinho, mas disse esta semana que ainda não terminará com a namorada.
Eu gosto tanto da presença dele!
Ele é tão carinhoso, beija minha face, acaricia-me o pescoço, os braços. No busto também.
Ele disse tanta coisa bacana, tantas palavras carinhosas.
Meu Deus, eu não suporto viver sem a afeição de um homem!
A vida é árida, sem estímulo, sem amor e carinho de um homem estimado!
Eu não suportarei viver só, daqui a pouco anos!
Eu não agüentarei, meu Deus! Eu darei um fim na minha vida!
E crianças? Eu nem suporto ver propaganda que tem criança na televisão.
Dói a minha alma por não Ter uma criança minha, um bebê meu. E é doloroso demais pensar que dentro de poucos anos não poderei mais ser mãe!
Hoje fiquei pensando em ser mãe já, sem estar morando com nenhum homem.
Eu não posso esperar mais, não adianta esperar mais.
Eu não sou virgem, e por isso nenhum homem quererá casar comigo. Eu perdi a virgindade com 32 anos.
Eu nasci, parece, com essa sina cruel: nunca ser feliz no amor.
Ele calculou 24 ou 25 para mim.
Mas eu tenho 35.
E logo será 40.
O outro rapaz antes desse, terminou no início de outubro, comigo. Durante um ano e dois meses fui sincera para ele, nunca saí com outro. Terminou dizendo que ia casar com outra.
Mas ele nunca foi dedicado a mim, estava sempre com pressa, nunca me levava para passear, nunca me deu um presente e aparecia uma ou duas vezes por mês, às vezes demorando mais. Eu agüentei, com esperança dele mudar.
Hoje pensei muito em ser mãe de todo o jeito.
Ontem eu pensei em tantas coisas cuja mulher é mais velha que o homem, e ele a ama tanto.
Outro dia mesmo conheci um casal assim. Ele parece no mínimo 15 anos mais moço, pele lisa, vistoso.
Ele quase velha e quase cega.
Ele com o maior carinho com ela.
E o Álvaro parece ter quase a idade que eu aparento Ter.
Eu nunca tive sorte com homem mais velho.
Nem eles se interessaram por mim, nem eu por eles. Não sei se é porque sou pequena, com corpo de mocinha.
Eu não quero perder o Álvaro! Ele é tão carinhoso! Têm uma conversa agradável, é inteligente.
Se eu passar no concurso de Cr$ 900,00, poderei criar um filho, pois com o aumento de janeiro passará a Cr$ 1080,00.
Não. Não dará.
Terei que pagar uns Cr$ 150,00 por mês numa boa creche. E o táxi para levá-lo cedo, antes de ir para o trabalho?
E roupa, remédio?
Ó meu Deus! Tenha pena de mim!
Estou quase sem força já. Atenda o meu pedido, ou tira-me a vida, meu Pai!

3 de novembro/1972
Terei coragem? Quando penso no bebê sem Ter um papai para chamar papá, dói-me o coração. Mais depois reflito: quantas viúvas novinhas, quantas desquitadas com um bebê nos braços! E até encontram outros companheiros ou maridos.
Qual o destino melhor: filhos mesmo sem esposo ou solteirona sem filhos, com sua vida vazia, sem ideal , se netos, sem ninguém!
Não, meu Deus! Eu não suportaria!
Com 35 anos mas atraindo ainda os homens, talvez por aparentar uns 25 ou 26, já me sinto inútil, vazia. O trabalho é apenas uma obrigação para mim. Sou escriturária, e tenho dias que o desânimo me domina.
Eu nunca fui muito animada mesmo para viver. Só me sinto feliz, entusiasmada e estimulada, quando tenho um amado.
Tantas mulheres tem sorte!
Eu preciso ser mãe logo, urgente, agora que ainda encontro quem me queira, e por quem eu simpatizo. Logo eu irei ficando feia, e nenhum homem me quererá nem para aventura de uma noite.
Eu já recusei tantos rapazes que poderiam ser meus esposos!
Por que a minha vocação maternal apareceu tão tarde?
Só com 29 anos de idade comecei a sentir a imensa vontade de ser mãe. E há sete anos sofro por esse motivo. E quanto mais o tempo vai passando, outros motivos além dos atuais aumentarão o meu sofrimento!
Eu tinha medo de morrer de desastre. Agora, acharia até muito bom, para escapar ao que o futuro me reserva.
Eu tenho 35 anos! 36, 36, 38, 39, 40. Não poderia mais ser mãe! Logo virá a menopausa! Que desespero, meu Deus!
Não, meu Deus! Não me esse castigo!
Mais uma vez eu vos suplico: tire essa provação do meu caminho!
Podia tanto aparecer um homem desquitado, de uns 40 anos! Mas não aparece. E e eu não consigo simpatizar com homem mais velho.
E são os novos também que se interessam por mim.
Hoje, agora, estou mais calma que ontem.
O Álvaro, com só 23 anos ainda incompletos, disse que me achou bacana.
Que sina cruel, meu Deus!
E eu não sou mais virgem, nenhum homem se casará comigo!
Mas mesmo que eu ainda fosse, nenhum se casaria mesmo, um azar parece me perseguir.
E acho que se eu fosse virgem ainda, estaria muito mais frustada.
Estaria guardando algo que nunca seria de ninguém, reservando para alguém que nunca apareceria para se casar comigo. Sinto uma espécie de compensação, uma vingança contra os homens que tanto já me fizeram sofrer.
Eu sei de uma ex-colega casando lá pelos 35 ou 36 anos, e acho, virgem. Mas eu não teria essa sorte.
Em outras vidas devo Ter causado muito sofrimento aos homens, a explicação só pode ser essa.
Se eu fosse mais nova, tentaria mudar de país. Iria para um país onde os homens dessem mais valor à mulher, é difícil encontrar um homem bacana, atualmente, pelo menos nessa grande cidade.
Estou mesmo resolvida. Assim que meu ordenado subir, ficarei grávida.
O que me faz vacilar é o medo de o pai do bebê não registrar o bebê no seu nome.
Viver neste mundo com pai e mãe casados e vivendo bem, já é difícil, árido, têm-se tantas aflições e decepções, quanto mais ainda não constando o nome do pai no registro.
Por toda parte onde vá, essa humilhação o acompanhará.
Se a mãe pudesse declarar o nome do pai! É preciso.
Eu quero ver constando na Certidão de Nascimento do meu futuro bebê, o nome do pai!
Eu precisava morar junto com o pai do bebê, para ele Ter certeza do filho ser dele!
Eu preciso morar junto com um companheiro do meu agrado!
Se o Álvaro quisesse eu queria.
Mas nem sei se nos veremos mais.
Amanhã pretendo ir num sambão, onde vão rapazes à bessa. Foi lá que conheci o Álvaro.
Pretendo ir amanhã e Sábado.
Ainda bem que ainda gosto de bailes, festas. Mas quando nenhum rapaz olhar mais para mim?
Quando eu não atrair mais ninguém?
Dá-me pavor só de pensar.
Quando eu não receber mais beijos, abraços e afeição, quererei morrer. Já agora, pensando nesse futuro, quase me desespero!
Eu já tenho 35 anos!
35 anos!!

Deus, o meu Criador precisa se apiedar de mim.
Foi Ele que colocou no nosso ser, no nosso coração, essa necessidade imperiosa de amar!
É como se Ele me desse sede e não me desse água para eu beber, me desse fome, e eu não encontrasse alimento para comer.
Ó meu Pai, tenha pena de mim!
Ajuda-me a realizar minhas aspirações de companheira e mãe!!!!!!

25 de novembro/1972
Hoje, neste momento, estou mais animada e confiante.
Ontem fui num sambão pela 2ͺ vez.
Diverti-me bastante sambando, bebendo, conversando com rapazes.
Vários se interessaram por mim.
Ainda chamo atenção, ainda atraio os homens. Isso me é tão importante! Faz ainda Ter esperança de Ter um companheiro e filhos.
Lá é bárbaro. Como tem homem!
Adoro ambiente de festa. Todo mundo alegre, comunicativo, amigo. Sempre gostei de bailes. Eu não gostava de samba. Mas agora gosto à bessa.
Sambo até sozinha sem a menor inibição.
E ontem, depois de sambar com alguns rapazes, encontrei o Álvaro, o causador de minha fossa e desalento desta semana.
Por causa dele, tomei até 3 calmantes. Ele ainda não terminou com a namorada. Ele ficou comigo.
Trouxe-me para o meu apartamentinho. Eu lhe contei ontem que moro sozinha.
Tivemos relação sexual quase completa, pois talvez por cansaço ou bebida ele não estava "conseguindo".
Foi embora em seguida, pois ia viajar para o interior com um amigo às 4 e 30 da manhã para um casamento.
Ele continua carinhoso.
Mas tenho receio de gostar muito dele e ele nunca terminar com essa namorada.
Hoje pretendo ir novamente ao Sambão. Eu preciso me divertir.
Já fico a semana inteira trabalhando e vendo novelas à noite.
O meu problema agora é ganha melhor ordenado para criar o filho que pretendo Ter.
Eu não quero viver frustada e amargurada em futuro bem próximo.
Eu não sei quando morrerei, pode não demorar como posso viver até lá pelos sessenta. Deus me livre viver solitária, velha, sem filhos para me darem ânimo de viver!
E eu não posso ficar sossegada no momento, achando que vão sempre me dar 25 ou 26 anos. E mesmo que ainda fosse, meu ovário tem o prazo certo para funcionar. Não posso ser imprevidente.
Tenho 35 anos, não devo esquecer um momento!!!
Eu só preciso, par tentar engravidar, de Ter uma certeza: o pai da criança reconhecê-la como filho.
E também eu ganhar bem, para dar todo conforto ao meu filho, pois não quero contar com a ajuda do pai da criança.
Se ele ajudar, ótimo, mas, e se não ajudar?
Se morrer por uma fatalidade?
Mas mesmo quando tiver o meu filho, quero continuar divertindo, deixando-o uma vez por semana à noite, em um maternal.
Vou enforma-me se existe alguma que tome conta de bebês à noite.
Estou planejando já isso, caso o meu companheiro, pai do meu futuro filho me deixar. Pois sem a afeição de um homem, não vivo feliz. Fico deprimida, com idéias mórbidas, de morte.
Todo ser humano deve tentar realizar todas as suas afeições.
O Álvaro vai me telefonar na próxima semana.
Mas hoje pretendo sambar de novo, divertir!

26 de novembro/1972
É Domingo. Quase 14 horas.
Acordei tarde, sem fome e com preguiça. Tomei só uma sopa.
Amanheci e as aspirações amanheceram comigo. Os planos também.
Conclusões ou reflexões sobre os prós e contras de uma atitude que pretendo tomar.
Por exemplo, o Álvaro completará 23 anos em fevereiro (início). E eu completei 35 anos semana passada.
Ele é 12 anos mais novo que eu.
Já disse que não aparento essa idade. E os homens interessados continuam aparecendo.
Infelizmente a maioria quer dormir junto no 1Ί encontro. Eu já dormi, umas poucas vezes, mas não o farei mais. Primeiro saio e sairei algumas vezes. Pois para mim, o sexo exige sentimento, carinho, afeição.
O Álvaro é carinhoso, atencioso, agrada-me.
Mas eu comecei a escrever conclusões e relações humanas, ou seja, as coisas que acontecem com as pessoas, no decorrer de suas vidas.
Penso: deveria procurar gostar de um homem mais velho, para haver chance de dar certo.
Mas aí lembro-me de vários casos de casais que se separam, mesmo ele sendo mais velho.
E quantos homens casados mais velhos, tem amantes, abandonam os filhos e tudo. E penso ainda: até hoje, eu com 35 anos, só se interessam por mim, rapazes mais novos.
Sei lá, parece que os mais velhos se escondem, a gente não os encontra em lugar nenhum.
Na vida, seria bom se fosse tudo certinho para todo mundo.
É maravilhoso, um homem e uma mulher se amarem a vida inteira. Mas nem todos tem essa sorte. Alguns casais vivem alguns anos na maior felicidade, e de repente, um morre, ou o homem arranja outra ou vice versa. E muitos não se separam só por causa dos filhos.
O trágico do amor, é que nunca se tem certeza de quanto tempo durará. O amor está sempre sujeito a mil perigos.
Quando eu penso na idade do Álvaro, parece que vejo um obstáculo imenso ao nosso amor. Casamento então está fora de qualquer cogitação. Mesmo que eu fosse virgem ele não se casaria comigo sabendo que tenho 35 anos.
Mas, nesta vida, quando não se pode Ter uma coisa direitinho, ou seja, casamento, deve-se Ter de qualquer maneira.
É preciso realizar o que se tem vontade. O instinto, a vocação, é mais forte.
Eu quero com toda a minha vontade, Ter filhos. Anseio desesperada.
Tenho um medo louco de não ser mãe. Eu não serei uma mulher frustada.
Eu, há 6 anos sofro quando vejo outras mulheres com seus filhinhos, seus bebezinhos nos braços.
Eu sinto inveja, um ódio, quando escuto mulheres chamarem: venha aqui, filhinha.
Ou quando escuto uma criança chamar: mamãe!
É uma dor dilacerante, insuportável.
Quantas mães educam sozinhas seus filhos, por viuvez ou porque se desquitaram!
Eu já perdi mesmo a esperança de casar. E também não vou querer casar depois dos 40 anos, isto é, sempre se quer, mas aí não poderei mais ser mãe.
O único medo que me prende é o medo do pai do meu futuro filho não registrá-lo como seu.
Mas não é possível que um simples pedaço de papel seja o obstáculo à realização de minha aspiração. Não é possível que um simples documento impeça-me Ter o que eu desejo.
Mas o Álvaro tem namorada.
E se ele se casar com ela? Mas eu terei mau bebezinho. E poderei encontrar outro homem que me ajude a criá-lo.
Tem tantas desquitadas, viúvas e até mães solteiras que encontram companheiros, por que eu não poderia Ter essa sorte?
Quem sabe o meu destino é esse?
Prefiro mil vezes ser mãe solteira do que solteirona!
Poderei arrepender-me no futuro, mas é mais forte do que eu!
Saber que a cada dia vai diminuindo inexoravelmente o tempo! O tempo de fertilidade! O tempo de conceber!
O Álvaro me disse que o pai que põe um filho no mundo, deve dar assistência a ele. Se ele disse a verdade, não me abandonará.
Eu serei fiel a ele, e ele terá que Ter certeza disso, para Ter certeza do filho ser dele. Não adianta eu ficar sempre achando que vai aparecer outro.
O importante é tentar segurar o que já se tem.
Será errado eu querer engravidar sem pedir a permissão do Álvaro? Ele não concordaria, tenho certeza. Mas quando ele ver aquele bebezinho gordinho, parecido com ele, tenho certeza de que se orgulhará.
Irei este mês em creches e escolas maternais saber a mensalidade para tomarem conta de um bebê o dia inteiro. É bom planejar tudo, ver o orçamento, para não passar necessidade.
E eu não sou de fazer sacrifícios, comer de marmita, cozinhar.
Tem tantas mulheres casadas, doidas para terem filhos e não podem. Ou ela ou o marido são estéreis. E eu, penso, sou fértil. Pelo menos já fui examinada e tenho os órgãos reprodutores perfeitos.
Mas quanto mais idade a mulher tem, mais difícil é ela conceber, já li isso, e médicos também me falaram.
Eu preciso passar no concurso cujo ordenado é de Cr$ 900,00! Com o aumento de 20 % em janeiro, serão Cr$ 1050,00 mensais!
E sobre o Álvaro Ter namorada, não deve ser impecilho, pois o meu companheiro anterior não tinha nenhuma, quando começamos, e depois, arranjou, e terminou comigo.
Eu tenho que Ter filhos! Novamente só de pensar no futuro de solteirona, dá-me um pavor! Ainda não me considero solteirona, 35 anos. Dos 40 anos em diante, quando nenhum homem me quiser mais, quando não despertar atração, aí deve ser horrível. Se eu já acho ruim agora, e depois, meu Deus? De vez em quando tenho idéias despressivas, vontade de morrer.
E para que esperar conhecer melhor o Álvaro, dar mais tempo para aumentar a afeição?
Para quê? Pois o tempo, às vezes, ou geralmente piora ou diminui a atração ou afeição. Ele é carinhoso como eu gosto, é terno. Muito mais do que o anterior a ele, que chegava e nem me beijava. E nunca me levava para passear.
Bom, e depois de todas essas reflexões e conclusões, o que resolvo? Terei relações sexuais com o Álvaro sem tomar pílulas?
Sem esperar fazer o Concurso para ganhar mais?
E se o Álvaro deixar de gostar de mim e eu dele?
Mas esse é o risco que todos correm. Até os casados.
E o meu principal objetivo é ser mãe. Parece que há uma lei em que o pai é obrigado a sustentar a criança, mesmo sem ser casado.
Mas eu não quero nada obrigado.
Não posso ficar me debatendo mais em dúvidas. Logo chegarão 36, 37, 38, 39, 40!
Nesta vida ninguém escapa do sofrimento, mas, o mesmo genêro de sofrimento muitos anos, pode até levar à loucura ou as desespero
Já sofri demais por ainda não Ter um bebê meu.
Meu Diário é a prova.
Eu sou mulher, eu tenho direito de ser mãe!
Meus órgãos femininos não podem existir em vão, sem utilidade!
Eu tive coragem de deixar minha família e vir morar nesta grande cidade, tive coragem de perder a virgindade, tive coragem de morar sozinha, terei coragem de ser mãe!

27 de novembro/1972
Hoje já informei-me sobre os endereços das creches.
É bom eu já saber tudo, mensalidade, horário, localização, antes de ficar grávida.
E não adianta eu esperar ficar firme com um rapaz, ou morar junto, pois meus romances sempre terminam.
Já tive centenas de romances. Parece um fatalidade. E não é porque sou mais velha. Desde a adolescência. Quando ele não termina eu termino.
E para dizer a verdade, sempre tive medo do casamento. E ainda tenho. Quero dizer, é claro que gostaria de casar só por causa da maior segurança dos filhos, mas eu tenho muito receio de morar junto. Pode ser que eu goste muito, mas que tenho medo, tenho.
Mas é uma experiência pela qual eu deveria passar. Toda experiência é útil. Mas eu acho que nem morar junto com um homem eu morarei. Não acredito que alguém goste tanto de mim para querer morar junto e arcar com as responsalidades, pois morar junto é como marido e mulher, eu acho.
Minha irmã, que mora também aqui em São Paulo, não tem também muita sorte. E ela é mais bonita que eu.
Agora é noite, estou recostada no sofá, a televisão ligada.
Reli por acaso umas folhas que escrevi há dois anos, quando tinha loucura para alugar um apartamentinho.
Demorou quatro anos e meio para eu conseguir poder alugar. Quando fui chamada num concurso político que fiz, foi que o ordenado deu. Agora, fez um ano e meio que moro neste meu apartamentinho. Não me arrependi nem um pouco. Não digo que não sofri aqui, mas foi por causa do rapaz meu amante durante 1 ano e 2 meses, que demorava para vir me ver, e eu ficava sozinha, sem sair, sem ir à festa, sem divertir-me.
Eu, que quase nunca ficava um sábado sem ir a bailes com amigas, fiquei 1 ano e 2 meses passando o fim de semana na solidão.
Ele passava quase 1 mês sem aparecer, uma época vinha de 15 em 15 dias, e passou uma vez 2 meses sem vir. Não sei como consegui suportar. Eu tinha esperança dele mudar.
Ele, além de demorar a aparecer, quando vinha ficava pouquíssimo comigo, estava sempre com pressa. E não era carinhoso como eu desejava.
Mas mesmo assim deixava-me feliz vários dias, quando vinha me ver.
Eu chorei vários dias quando ele terminou comigo.
Ele terminou no dia 12 de outubro.
Tem pouco tempo, mas esqueci-me dele já completamente.
Eu sou assim: quando quero, esqueço com a maior felicidade.
Agora só penso no Álvaro, que conheci dia 10 de novembro.
Ele é muito carinhoso, do jeito que eu gosto, trata-me com uma ternura, beija-me a face como um namorado afetuoso.
O anterior só gostava de morder.
O Álvaro precisa terminar com a namorada, mas continuarei a sair com ele mesmo que não termine. Mas será que ele me telefonará para sairmos esta semana?
Já tivemos 3 encontros, cem contar o 1Ί dia.
Pensei agora: e se o Álvaro não me procurar mais quando eu ficar grávida? Acreditará que o filho é seu?
Eu tenho que estar preparada para tudo: eu criar o meu filho sozinha.
Estou assistindo um filme interessante na TV, mas começo a Ter sono.
Paro de escrever por hoje.

29 de novembro/1972
O dia inteiro hoje, eu feliz, por causa do Álvaro.
Ontem ele telefonou para mim e veio aqui.
Ficamos umas duas horas e meia assentados no sofá abraçadinhos, conversando, vendo televisão, e beijando e acariciando.
Ele continua muito carinhoso.
Ele tem senso de humor, é inteligente. E pena Ter só quase 23 anos. Mas parece Ter uns 25.
Ele é carinhoso como eu gosto, cabelos e olhos claros. Um pouco mais alto que eu: tem 1 m e 67.
Depois ele me levou no colo para cama. Tivemos relações sexuais. Não dormiu comigo porque acorda mais tarde, mas convidou-me para dormir-mos juntos na 6ͺ feira no apartamento onde ele mora. Seus colegas viajarão. Eu nem lembro que ele tem namorada. Não falei ontem para ele terminar com a namorada.
Ele já me disse duas vezes que não gosta dela. Mas não termina. Mas ele não é casado, e não vou terminar. Darei tempo a ele, tentarei não me lembrar que ele sai com outra.
Mas ele sabe que eu vou a bailes sem ele e deve ficar sempre na dúvida se arranjei outro.
Na 6ͺ feira nós vamos primeiro passear de carro, ir no Sharede (um barzinho romântico a meia-luz, beber algo, dançar.
Eu perguntei ontem à ele, o que ele faria se uma moça com quem ele tivesse relações sexuais ficasse grávida. Ele me disse que não sabia, nunca tinha pensado nisso. Mas outro dia ele falou que o pai de uma criança (sem ser casado) devia dar toda assistência a ela.
Ontem foi o 9Ί dia após a minha menstruação. Era o 1Ί dia do período fértil. E não estou tomando anticoncepcional.
Eu estava em dúvida se esperava fazer o Concurso para ganhar Cr$ 900,00 (com o aumento de janeiro passaria para Cr$ 1080,00). Mas estou pensando o seguinte: se eu esperar, o Álvaro e eu poderemos terminar, e eu poderei demorar a encontrar outro rapaz que me agrade e interessado.
É bobagem eu esperar um romance meu dar certo. A vida inteira será assim, e eu não deixarei de ser mãe por isso.
Hoje eu me sentia tão feliz só de pensar em ficar logo grávida! Não devo adiar nem um dia mais.
Eu criarei meu filho sozinha mesmo.
É melhor filho de mãe solteira do que filho de mulher desquitada, que tem trauma pela separação dos pais.
Quantos filhos são criados só pela mãe!
Ontem, duas serventes estavam reclamando da vida de casa, que os maridos eram isso e aquilo.
Uma ainda não tem 1 ano de casada.
Ontem fui informar-me sobre uma Creche, e a Assistente social disse que era um regime de internato, Cr$ 120, 00 mensais e as crianças eram filhos de domésticas, mas qualquer mãe poderia deixar seus filhos lá, havendo vaga.
Disse Ter também uma Creche muito boa no bairro onde eu moro, e não longe da minha rua.
Estou tão esperançosa! Eu hei de Ter um bebezinho breve, se Deus quizer!
Eu não ficarei uma solteirona solitária!!!!
Uma solteirona sem objetivo, sem um ente para me dedicar, um ente para eu amar e proteger.
Existem tantas mães solteiras. No futuro isso será totalmente aceito, algo completamente natural. Talvez, até já seja. O meu único receio é não constar o nome do pai do meu futuro filho na Certidão de Nascimento. Será que eu não poderia inventar um nome?
Existem tantos nomes e sobrenomes iguais.
Eu poderia fazer uma Procuração do pai do bebê, como se ele estivesse viajando para o exterior.
Poderei até me informar com um advogado sobre isso, ou melhor, eu mesma resolverei esse assunto. Ninguém saberá.
Um nome numa folha de papel não causará complexo no meu futuro filho. Já escolhi até o nome dele, faz anos.
Hoje foi um garotinho loirinho uma gracinha, na seção.
Enterneceu-me, porque pensei que o meu será também assim, (eu desejo), pois o Álvaro é quase loiro.
É bom eu não esperar mesmo, pois de repente o Álvaro fica noivo da outra e casa, e será mais difícil ele querer reconhecer o filho como seu, ou abandonar-me-à.
Eu sei que deverei sofrer um pouco, criando um filho sem meu companheiro, mas sofrerei mais ainda se for uma solteirona solitária, sem filhos.
E talvez até o Álvaro continue comigo algum tempo.
Mas devo estar preparada para tudo.
Contarei só comigo, com meu ordenado, minha coragem e minha fé em Deus.


4 de dezembro/1972

7 horas da noite.
Assistindo as novelas.
Passei o dia calma, trabalhando no meu cargo de escriturári.
Sábado dormi o dia inteiro e Domingo não dormi mas repousei o dia inteiro só lavando algumas peças de roupa.
Sábado dormi o dia inteiro porque 6ͺ feira à noite fui no Sambão e bebi 2 cubalivres além de um pouco de cerveja.
O Álvaro tinha me dado "bolo", não veio como prometera, e eu fui para o Sambão com uma amiga.
Esperava haver algum motivo dele não Ter vindo, e esperava encontrá-lo lá. Mas como o tempo passava e ele não chegava, apareceu outro rapaz simpático e fui sambar com ele. Depois fomos beber algo. Sentamos no bar, rimos e depois chorei.
Pretendo beber pouco em bailes, para não dar esse "show".
E o chato é que depois o Álvaro chegou e me viu acompanhada, e eu chorando. Que vezame. Aí encostei perto dele na parede e comecei a conversar com ele.
Então o outro rapaz pediu licença e se retirou.
O Álvaro disse estar muito cansado e só depois dançamos um pouco. Depois fomos levar minha amiga em casa, e depois fomos para o apartamento dele.
Tivemos duas relações sexuais.
Dormimos juntos. Eu estava no meu período fértil: início do 13Ί dia após o dia da menstruação. Talvez eu até já esteja grávida.
Mas eu pensei bastante e não me arrependerei.
Pode até ser que o Álvaro registre a criança no seu nome, mas, e se duvidar ser o pai? Ele não me conhece o tempo suficiente para acreditar em mim.
Mas eu não quis esperar mais.
Tenho 35 anos e não espero mais tempo para Ter um bebê só meu. Eu não suporto mais a dor de ver crianças dos outros! Eu quero Ter a minha! Ultimamente tem aparecido alguns fios de cabelo branco na minha cabeça. Uns 4 ou 5 de uma vez. Eu arranco e daí a algum tempo descubro outros.
Se o Álvaro não quiser dar seu sobrenome à criança, eu posso até pegar um rapaz pobre, ou um homem de nome comum, para dar seu nome como pai.
Eu não posso suportar é a idéia de ficar em branco o nome do pai.
Sustentar, crias, eu criarei sozinha, apesar de saber que também sofrerei.
Mas eu tenho de ser mãe. Eu não serei uma árvore estéril, que não deu frutos.
Estarei fazendo uma loucura? Mas é mais forte do que eu!
Hoje estou calma. Eu naõ rezarei pedindo para o Álvaro e eu constituirmos um lar, pois eu pedi demais, rezei demais pelo o outro, para dar certo, quando ele esteve doente, com cálculo nos rins, eu rezei tanto para ele ficar bom, chorei várias vezes aflita, rezei tanto para ele ser meu companheiro, fui fiel à ele 1 ano e 2 dois meses, e não adiantou.
Já pedi tanto um companheiro a Deus, ao meu anjo da Guarda, a Nossa Senhora, e até hoje não fui atendida.
Se não mereço Ter um esposo ( mas eu acho que mereço, sou sincera, carinhosa, compreensiva) pelo menos ser mãe eu mereço. Deus não me negará esse direito que tenho! Serei uma mãe solteira! Mas serei mãe! Serei mãe! Serei mãe!!!!


17 de dezembro/1972

Estou ao mesmo tempo feliz e com muito medo! Eu acho que estou grávida! Minha menstruação era para Ter vindo ontem, ou no máximo hoje durante o dia. Sou muito regulada e a menstruação vem infalivelmente de 27 ou de 28 em 28 dias. Este ano inteirinho eu marquei em um calendário, e nunca ultrapassou 28 dias. E agora já são 7 horas da noite!
E meus seios não ficaram doloridos como sempre acontece alguns dias antes da menstruação.
Estou sozinha no meu apartamento, e tremo pelas consequências!
E o Álvaro é o pai. E ontem no sambão ele terminou nosso romance.
Mas disse palavras muito carinhosas.
Segurou minha cabeça com as duas mãos e disse que não queria que eu viesse a sofrer, pois ele não terminaria mesmo o namoro com a namorada, porque gostava muito dela e ela gostava muito dele. É o namoro de quase 2 anos, disse.
Mas falou que era muito bacana e que tinha medo de se apaixonar por mim, e vir a sofrer.
Ele falou mais: que eu poderia encontrar um rapaz sem compromisso, que poderia me fazer feliz, me ajudar.
Oh, meu Deus! E quando eu disser a ele? Qual será a sua reação?
Vou suplicar-lhe para ele não me abandonar!
Eu queria ficar grávida, ser mãe, mas agora estou com medo!
Eu quero que meu filho tenha um pai para se preocupar com ele.
Eu ainda não estou acreditando que fiquei grávida! Será mesmo que um espermatozóide do Álvaro fecundou o meu óvulo?
Estou com pena do Álvaro, pois ele vai completar só 23 anos no início de fevereiro.
Eu vou sofrer por ele ter outra, porque, com toda certeza ele vai casar com a outra. Mas se ele não me abandonar durante a minha gravidez, eu poderei me considerar muito feliz.
Ele viajará de férias no dia 28 deste mês. Pretendendo lhe telefonar e lhe dizer, na 3 feira. Hoje é Domingo.
Mesmo que eu crie sozinha o meu filho, prefiro mil vezes, do que vir a ser uma solteirona solitária, revoltada, amargurada.
Tem tantas mulheres que desquitam , ficam viúvas, e criam os filhos sozinhas. É muito melhor do que ser uma árvore estéril, que não deu frutos. Quando fui consultar o médico para saber se meus órgão reprodutores eram perfeitos, conversei com algumas mulheres que queriam Ter filhos (casadas). Conversei com uma que até me deu pena. Trinta e poucos anos. Já fez cada tratamento! Até já lhe cortaram um pedacinho do útero para examinar.
Os médicos às vezes demoram anos para descobrir a causa de uma esterilidade.
Deve ser horrível um casal querer Ter filhos e não Ter.
Deve ser, não. É. Devem sofrer como eu venho sofrendo.
É preferível ser mãe solteira do que casada sem ser mãe.
Se eu estiver mesmo grávida, devo me sentir muito feliz, por não ser estéril.
Eu nem um suporto olhar propagandas que contenham crianças, na televisão.
Quando passo perto de uma mulher grávida ou uma criança, viro o rosto, passo depressa, me é insuportável, dói a minha alma.

18 de dezembro/1972
Não veio mesmo a menstruação.
Hoje tive uns momentos muito nervosa, pensando nas conseqüências, sem saber qual será a reação do Álvaro.
Quando fico um pouco apavorada, penso nos 35 anos e logo a chegada dos 40, e eu sozinha, eu com 45, logo 50, e quantos anos horríveis teria de suportar.
Eu sou fértil, e devo dar graças aos Céus, tenho os órgãos perfeitos para conceber, para ser mãe!
Eu nasci para Ter filhos! Em momento penso na felicidade tão grande de Ter um bebezinho meu! Um bebezinho que me chamará de mamãe.
E é tão consolador pensar nisso!
Preciso telefonar logo para o Álvaro, senão ele viaja, e depois não vai acreditar que o bebê é dele. Eu vou lhe dizer que esqueci de tomar pílula um dia, pois se eu disser a verdade ele não me perdoará.
Amanhã eu vou telefonar para ele, da Telefônica.
Sairei mais cedo do trabalho.
Hoje comprei um cartão de Natal, e mandei para meus pais e irmãos.
Não poderei passar o Natal na casa dos meus pais, porque o dinheiro não dá.
O Álvaro me agrada. O que mais me agrada nele é o seu jeito carinhoso de me tratar. Até quando ele fica bravo, a voz dele é mansa, é amena. O Álvaro sempre me beija quando a gente se encontra.
Gosto muito mais do Álvaro do que do outro amante anterior, de 1 ano e 2 meses.
O Álvaro me trata como namorada, com carinho.
Fico muito contente de ele ser o pai do futuro bebê.
Mas parece até mentira eu estar falando de um bebê, de entezinho já com vida dentro de mim.
Quando eu penso no mistério dessa união, fico abismada de ver como um espermatozóide invisível de tão pequenino, unir-se a um óvulo, do tamanho de um grão de areia, e juntos se transformarem num ser humano!
Quantas centenas de vezes um óvulo meu desceu e não foi fecundado!
Quantas vezes um óvulo desceu!
Posso até fazer a conta: 12 meses


21 anos
12

24
252

252 vezes? Pensei que fosse mais.
Até 44 anos são 360 óvulos.
É, a natureza tem um estoque que acaba chegando ao fim.
Que bom que óvulo meu foi fecundado! Não existiu em vão.
A vontade imperiosa de ser mãe foi mais forte que tudo, que preconceitos vãos.
O ser humano não obedecendo a voz da natureza, sofre muito mais.
Que felicidade Deus Ter me dado fertilidade, o poder de gerar novas vidas!
Coitadas das mulheres nunca sendo mães! Coitadas das solteironas, de vida tão vazia e egoísta.
E eu quero Ter mais de um bebê.
Eu hei de criar mais vidas! Mas estou achando inacreditável estar grávida.
Mas amanhã eu demonstrarei estar apavorada para o Álvaro não me abandonar.
E hoje ele deve estar tão tranqüilo sem saber que vai ser pai!
Eu sei: terei ainda momentos de medo. Mas terei confiança e esperança também.
Talvez o Álvaro até ainda venha morar comigo.
Não devo desistir de conquistá-lo.
Para a minha felicidade e a do bebê.
E meus pais quando souberem?
Acho que compreenderão.
Vou dormir que já são mais de nove horas da noite.

19 de dezembro/1972
Telefonei para o Álvaro.
Ele falou para eu passar na farmácia e comprar um remédio para a menstruação vir. E virá aqui amanhã à noite.
Eu disse à ele que estava apavorada, que não sabia o que fazer.
Ele falou que arranjaremos um jeito, que assim não posso ficar.
Tem momentos que me dá mesmo um medo danado.
Não só por mim e pelo Álvaro, como também pelo bebê, medo dele não Ter pai, quero dizer, medo do Álvaro não dar o nome dele ao bebê.
Eu não tocarei nesse assunto tão cedo com o Álvaro.
Eu não quero prejudicar a vida dele, ele não te culpa de nada. E não farei nada que possa prejudicar o namoro dele.
Coitadinho do Álvaro. É um rapaz tão bonzinho e ingênuo. Ainda bem.
Tenho esperança dele não me abandonar.
E ninguém poderá me acusar.
Eu já tenho 35 anos e a obsessão de ser mãe já me domina há 6 anos! Enquanto eu não tinha segurança eu esperei.
Só depois de passar em um Concurso Público, e de ser escriturária, e de Ter alugado esse apartamentinho, eu tentei ficar grávida.
Eu mesma quero sustentar o bebê.
Tenho que passar no outro concurso que farei, pois com o aumento de janeiro será Cr$ 1080,00 mensais.
Estou com pena do Álvaro, mas não se deve Ter pena dos homens. Mas é porque sou muito sensível, e o Álvaro sempre teve muita consideração comigo, e era muito carinhoso e terno.
Para eu não ficar com muito medo das conseqüências, devo lembrar das outras mulheres que já passaram por isso, e involuntariamente. E, eu foi voluntariamente.
O Álvaro vai pedir para eu fazer um aborto, se for confirmado a gravidez. Mas não farei, é claro.
Falarei que vou pensar.
Agora são quase 7 horas da noite, assisto televisão, mas estou nervosa e preocupada.

23 de dezembro/1972
Desde de 4Ί feira à noite estou muito feliz.
Hoje é sábado
Na 4Ί feira o Álvaro veio como prometeu.
Veio direto do serviço. Nem jantou. Chegou e me deu um beijo na face. Seus lábios estavam friinhos.
Devia ser de nervoso. Confrangeu-me o coração.
Assentou-se . Começamos a conversar. Eu havia chorado durante uma meia hora antes dele chegar, pensando em como seria diferente se estivesse casada e o meu marido ao ouvir a notícia de que seria pai, ficaria tão feliz. E chorava também pensando em qual seria o futuro do meu bebezinho, se não tivesse um pai para ama-lo.
E pensava no Álvaro também, que é tão bom, e não merecia o que ia acontecer: ser pai sem ser casado.
Mas depois que o Álvaro chegou eu melhorei.
Eu disse a ele que eu estava tomando um remédio que era um teste de gravidez. Mostrei ate o remédio e a bula. E que depois do dia 29 deste, eu saberia com certeza. Se a menstruação estivesse atrasada , ela viria, e se não viesse erra porque eu estava grávida.
Mas disse-lhe também que minha menstruação nunca atrasava, e é verdade. E que era por isso que eu estava preocupada.
Deus, me perdoe por Ter mentido, mas se dissesse a verdade, não sabia se ele me perdoaria .
Ele pediu-me para fazer um aborto, se eu estivesse mesmo grávida. Que ele não tinha condição para Ter um filho, e que era muito novo para acontecer uma coisa dessa com ele
Eu disse que tinha medo de fazer aborto, que era muito perigoso, que já lera vários livros sobre esse assunto. E é verdade.
Ele falou que tem tanta mulher que faz aborto, que até os médicos concordam.
Mas até a palavra aborto é horrível. Deus me livre. Não gosto nem de falar no assunto.
Eu quis, quero ser mãe!
Mas falei para ele que farei o aborto.
Mas eu vou ficar adiando, adiando.
Ele vai sair de férias no fim desta semana e só volta no fim do mês de janeiro.
Falarei que esperarei ele chegar.
Mas, na 4ͺ feira, depois de conversar sobre esse assunto, e ficarmos um pouco calados, preocupados, de repente eu olhei para ele e não resisti. Passei o braço no dele e perguntei, carinhosa: você está zangado comigo?
E ele, com aquela voz sempre calma e afetuosa respondeu: "não adianta ficar zangado, aconteceu, o que se pode fazer?"
Aí eu dei um beijo no seu rosto e instantaneamente ele me beijou e me abraçou. E começamos a nos acariciar com amor.
O Álvaro é tão carinhoso! Tão afetuoso! É do jeito que eu gosto. É um rapaz sensível.
E tivemos a relação sexual.
Eu sinto uma ternura por ele! Ele é física e espiritualmente do jeito que eu gosto.
Ele é uma simpatia. Clarinho, olhos claros, límpidos, cabelos castanhos claros (bem compridos, batem no ombro), o bigode é quase loiro, mede 1,67 de altura, tem um corpo elegante, bacaninha.
Parece feito para mim. Somos proporcionais um a outro.
Bom, continuando o assunto bebês, eu fui ontem na Biblioteca Pública e li um livro sobre a vida do bebê desde a concepção até o parto. Foi ótimo pois li muita coisa utilíssima. Fala sobre a importância da nutrição da gestante, para o bebê nascer forte, sadio.
Eu devia Ter lido até antes esse livro, pois comecei a tomar vitaminas, ferro cálcio, ou seja, esses remédios, só na 4ͺ feira, dia 20 de dezembro, no início da 3ͺ semana de gravidez. Pois já tenho certeza de estar grávida! Tem momentos que sinto uma felicidade tão grande!
E eu comecei a tomar esses remédios na 4ͺ, porque pesei 3 dias seguidos, e vi que emagrecia a olhos vistos. Em 15 dias eu emagrecera 2 quilos.
Então fiquei preocupada e comprei um remédio de vitaminas. É cebion cálcio. E comecei a beber iogurte.
E lendo o livro entendi porque emagrecera.
Assim que o óvulo fecundado chega ao útero, o feto começa a sugar todas as proteínas, ferro, cálcio, etc, da mãe, para que possa se desenvolver.
É uma coisa maravilhosa a criação da vida! Como a natureza é uma maravilha! E eu fico pensando no serzinho que está lá dentro de mim, dependendo de mim para sobreviver!
Foi tão bom ler aquele livro!
Depois que o li, já comprei 6 latas de sustagem, que contém todas as vitaminas necessárias no organismo.
Foi Cr$ 14,20 cada lata. Vou gastar uma nota em alimentação! Vou beber sustagem de manhã e à noite. E vou beber também ½ litro de leite diariamente.
O autor disse que os 3 primeiros meses são importantíssimos, pois terá para o resto da vida, ou seja, a constituição física, os ossos, o cérebro, etc e tudo o mais, e que cada parte do corpinho do bebê, tem aquela época certa para se constituir, e que passado aquele tempo, que pode ser até de um dia, nada mais se poderá fazer.
Eu fiquei chateada por terem se passado mais de duas semanas da concepção e eu sem tomar vitaminas extras. Mas tranqüilizei-me raciocinando que, se eu emagrecera, é porque o benzinho ainda em embrião retirará de mim as proteínas e demais constituintes necessários a ele.
O autor fala também que os estados mentais também influi muito, o que os estados depressivos da mãe prejudicam a criança. E que essas conseqüências podem se entender até à vida adulta da pessoa. Por isso eu vou procurar não me preocupar. Vou ver se fico bem confiante e otimista, tendo fé em Deus, que Ele me ajudará em tudo!
O autor fala também que é necessário repouso. Sobre isso, eu repouso bem, não sou de ficar me cansando.
O Álvaro ainda vem aqui na próxima semana, antes de viajar.
Hoje descansei o dia inteiro. E Sábado, não trabalhei. E repousarei amanhã, e também Segunda, que é dia de Natal.
Talvez eu vá à Matinê amanhã.
Eu tenho pensado tanto no bebê, que nem tenho lembrado que o Álvaro tem namorada.
E procurarei não pensar mesmo, para não sofrer, para que o bebê não sofra também.
Estou muito feliz porque o Álvaro não me abandonou, pois tem muito homem que não quer saber, isto é, que abandona a mulher, sem a mínima consideração. E eu acho o Álvaro tão bom e afetuoso comigo, que eu acho que ele gosta um pouco de mim. Isso é que é importante. Por isso estou tão feliz! E que ele continue me estimando, gostando de mim, é o que eu aspiro.
Confio na providência divina.
Agora são seis e pouca da tarde. Tomarei banho, alimentar-me-ei, tomarei as vitaminas e varei um pouco de televisão. Estou assistindo uma boa novela: "Quero Viver".

24 de dezembro/1972
Estou tão frustada! Veio a menstruação agora de manhã.
Só pode Ter sido um aborto espontâneo, pois minha menstruação nunca se atrasou!
E porque, meu Deus? Não estou mais grávida ! Que decepção! Até já chorei, desconsolada.
A única coisa que me consola é a alegria que o Álvaro vai sentir quando souber. Mas, e se ele ficar receioso de eu engravidar-me novamente e não quiser mais se encontrar comigo? Eu gosto tanto dele! Não posso perde-lo! Não quero perde-lo! Eu vou lhe telefonar 3ͺ feira cedinho, para contar a notícia.
Ainda não perdi a esperança de ser mãe, mesmo com esse aborto espontâneo, pois outras mulheres o tiveram e depois foram mães.
Pior se eu fosse estéril, quero dizer, seria horrível. Mas se eu concebi uma vez, posso conceber outra.
Mas este mundo maltrata mesmo a gente. Um dia a gente está tão feliz, e num outro dia arrasada, triste, chateada.
Mas ouvindo pelo rádio hoje sobre um terremoto de ontem de madrugada, na cidade de Managuá, em Nicarágua, onde calcula-se, morreram umas dez mil pessoas, e fiquei meditando, lembrei-me das palavras de Maria Santíssima, no livro Colarium: que ia acontecer muitas catástrofes até o fim do século por várias razões, e que uma grande maioria da população da Terra ia desencarnar. Talvez e morra breve. De um minuto para outro poderia ser chamada. Seria uma felicidade, pois viver neste planeta é Ter quase constantes aflições. São tantos os desastres que vive se sobressaltada com receio de perder um parente, um ente querido, num deles.
Estuou calma agora, resignada.
São 11 e pouca da manhã e ainda estou deitada no meu apartamento.
Hoje é véspera de Natal.
Eu serei feliz se o Álvaro continuar encontrado comigo!
Já conheci muitos rapazes, mas efetuoso assim como ele, não é fácil encontrar.
Ele deve estar pensando dias bem preocupados. Pelo menos as férias ele vai passar despreocupado.
Não sairei de casa nem hoje e nem amanhã.
Tive o aborto espontâneo mas ainda não perdi a esperança de Ter um bebezinho meu nos meus braços!

Mesma data – mais tarde
Já chorei à bessa e continuo chorando.
Estou revoltada por Ter tido o aborto espontâneo ou o que fosse e a menstruação que estivesse atrasada e chegou. O triste é que não estou mais grávida. E chorei pensando no Álvaro e choro pensando no Álvaro, pensando que ele não vai me querer mais e com medo de eu ficar grávida. Como sou infeliz! Como me sinto infeliz e sem coragem! Eu não quero perder o Álvaro! Não quero!
Resolvi comprar um presente de Natal para ele, para que veja que eu gosto mesmo dele.
Pretendo comprar um despertador para ele se lembrar de mim todo dia.

25 de dezembro/1972
Que dias horríveis, ontem e hoje! Ontem foi pior. Agora, felizmente já são quase sete horas da noite. Não agüento mais essa solidão. Se a menstruação, ou aborto espontâneo não tivesse acontecido, eu tenho certeza de que ontem e hoje passaria muito feliz. É tão triste pensar que não existe mais serzinho crescendo dentro de mim! Quando eu estava grávida, até a hora de deitar, eu já não sentia tanta solidão, pensando no pobrezinho dentro de mim.
E chorei também pensando que talvez o Álvaro, pelo susto que passou, nunca mais queira Ter relações sexuais comigo com receio de eu ficar grávida de novo, e é o que eu quero, ficar grávida dele de novo.
Eu não quero perder o Álvaro! Eu gosto tanto dele!
Mas ele disse que nunca iria terminar com a namorada.
Não será um sofrimento para mim, cada vez gostando mais dele, e sabendo que ele tem outra? Mas ele parece também gostar de mim. É tão terno e carinhoso!
Eu procuro confiar em Deus, mas não consigo. Eu já rezei tanto! Já sofri tanto! Já esperei tanto!
Eu não sou tão ruim que não mereça Ter um companheiro e filhos!
E sempre que fico deprimida me vem idéias de morte. Até desejei estar em Manágua e Ter morrido no terremoto de ontem de madrugada.
Nenhum espírito gosta de mim. Não tenho nenhum amigo no espaço que se importa comigo, que queira ajudar-me a realizar minhas aspirações!
Eu não vou passar o próximo fim se semana também de três dias, aqui dentro deste apartamento sozinha. Eu vou p’ a casa dos meus pais, em outra cidade.
Lá tenho irmãos e irmãs para conversar e distrair.

27 de dezembro/1972
Daqui a pouco irei para a rodoviária. Viajarei para a cidade onde estão meus pais. Resolvi hoje cedo.
Depois da véspera e dia de Natal horríveis, eu nem suportava a idéia de passar outro fim de semana de 3 dias aqui sozinha neste apartamentinho.
Eu acho que preferiria morara com um homem que sozinha, mas tenho medo de um se encher do outro, de virar aquela repetição. Mas se encontrar alguém do meu agrado que queira morar junto comigo, eu tentarei, pelo menos como experiência. Eu gosto do Álvaro, mas é melhor terminar.
Eu sofro de pensar que ele está com a outra, com a namorada, nos sábados, domingos e feriados.
Eu sofri uns dias e talvez ainda doa, a idéia de não estar grávida mais e o desespero de estar sem esperança, mais sofrerei mais, tenho um filho e sem pai do bebê ao meu lado, amando-me e ao nosso bebê.
Eu sofro toda vez que vejo um casal com um bebê. Pelo menos, enquanto o Álvaro está com essa namorada, vou tentar gostar de outro, sair com outros. Mas o Álvaro é tão bom e carinhoso, terno, bonzinho, que não vai ser fácil encontrar outro igual.
Mas eu já me entusiasmei por tantos!
Eu telefonei ontem para o Álvaro contando que a menstruação não viera.
Ele ficou contente e disse que agora viajaria mais aliviado. Ele se preocupou comigo também, perguntando se eu estava aliviada. Eu disse que sim.
Ele viajará amanhã, de férias, e voltará dentro de 1 mês.
Disse que se desse, telefonaria e viria aqui antes, mas tinha umas coisas para pôr em dia, etc, não sabia se daria. Mas é claro que ele vai se encontrar coma namorada, e sabe que isso me faz sofrer.
Não, não pensarei mais nele
Não agüentarei essa angústia de sabê-lo com outra. Eu não tenho nervos de aço. Sou muito sensível e ia sofrer muito. Vou ver se arranjo um outro amado.
Eu resolvi viajar hoje, 4ͺ feira, e faltarei na 5ͺ e na 6ͺ ao trabalho.
Passarei uns dias mais divertidos junto coma minha família.
Mas quando estou na casa de meus pais, tem momentos que me dá uma revolta, por não Ter ainda meu marido ou companheiro e filhos. Eu não me conformo de eu ainda ser eu só, com 35 anos.
São 21 horas e pouco.. vou para a rodoviária agora. Viajarei à noite. Gosto de ir mais cedo para a rodoviária.
Sempre que vou viajar sinto um pouco de angústia.
Procurarei não Ter inveja das pessoas que tem o que eu ainda não tenho. Senão, ou eu tenho logo o que desejo, ou eu ficarei doente ou louca num futuro próximo.
Toda cena em que vejo uma criança faz doer meu coração, me revolto, viro o rosto, não suporto ver as mães. Até cenas na televisão me fazem sofrer.
Se eu soubesse que iria sofrer assim, teria me casado mesmo não amando muito com algum dos candidatos que apareceram na minha vida.
A falta de ânimo se reflete até então no apartamentinho, que fazia dias eu nem varria nem espanava. O fogão estava sujíssimo, o chão do banheiro também. Hoje, agora há pouco, varri, lavei o fogão e o banheiro.
Só mesmo um alguém vindo sempre aqui, para me dar gosto de embelezar este apartamentinho.

Ano de 1973

7 de janeiro/1973
Hoje é Domingo, 12 horas. Estou sozinha no meu apartamentinho.
Acordei indisposta, talvez pelo calor. Sem ânimo, fiquei deitada até há pouco. Melhorei um pouco, lavei umas peças de roupa. Ainda tinha umas peças sujas , mas não tive ânimo para lava-las.
Eu cheguei da casa dos meus pais dia 1Ί a noite.
Passei 4 dias e meio em paz, fui a parada de Ipanema com minhas irmãs de 18 e 19 anos. Todos em casa trataram-me muito bem, foram quase 5 dias agradáveis.
Eu estava em paz, pensando no Álvaro.
Não estava inquieta e aflita para encontrar outro. Como em outubro, quando viajei de férias, após o amante anterior Ter terminado o romance comigo.
Em outubro eu estava numa solidão desesperada, ansiando loucamente colocar logo outro no lugar vazio deixado por ele.
Nesses 5 dias de fim de ano, eu estava calma, com o Álvaro dentro do meu coração, alegrando-me a vida, apesar dele estar longe, de férias.
Depois, cheguei. Terça feira recomecei no trabalho, e foi uma semana de muito trabalho, e eu trabalhei sem parar, sem pensar nos meus planos, aspirações, frustações.
Mas hoje, sozinha aqui no apartamentinho, invadiu-me novamente as dúvidas, temores, ânsias, desesperos.
De repente resolvi ir a um cinema, e antes comer um file de frango com queijo em uma lanchonete. Passei a calça comprida . E de repente perdi a vontade de ir , eu me vi sozinha entrando no cinema, me deu um desanimo , e lágrimas brotaram. E eu lembrei: o Álvaro quando voltar das férias vai continuar saindo com a namorada , no Sábado e Domingo. E quanto mais eu gostar dele, mais eu vou sofrer, sabendo que ele está com outra, e eu passei o Sábado e Domingo sozinha. Mas eu gosto dele! Não quero terminar com ele! Ele não me abandonará se eu ficar grávida de novo. Estou chorando , desconsolada.
Eu comprei o presente de aniversário do Álvaro: um despertador muito bonitinho , westclock, que permite ver as horas no escuro. Custou Cr$45,00. Ele, o Álvaro, deverá chegar dia 26 ou 27 deste mês .
Nas ruas desta grande cidade me chamaram de "linda" esta semana.
No sambão no mês passado um rapaz também me falou: "você é tão linda!"
Eu voltei queimadinha da praia, chamando bastante a atenção dos homens. Ainda posso Ter esperança.

9 de janeiro/1973
São 7 e 30 da noite. Tenho trabalhado bastante na minha seção.
Choveu na saída, ainda troveja.
Cheguei e senti-me sozinha.
Eu não nasci para morar sozinha.
O Álvaro vai chegar só no fim do mês ! E não sei se ele continuara comigo. E não estou com vontade de conhecer nenhum outro.
Não sei porque guerreiam tanto lá no estrangeiro. Um ser precisa tanto de outro!
Assistirei a novela das 8 e vou dormir.

13 de janeiro/1973
Não agüento mais sozinha.
Não agüento mais ficar sozinha o Sábado e Domingo inteirinhos, neste apartamentinho que no hoje estou detestando.
Acordei, olhei para o dia, e vi a infelicidade de estar só. Eu sou tão infeliz! Nenhum espírito me ajuda . Vejo tantos realizarem aspirações , e eu , sempre no mesmo lugar.
A culpa será minha?
Tem rapazes interessados na pensão onde almoço. Um é o dono. Mas não me agradam.
Levantei, lavei umas peças de roupas , e até lágrimas vieram aos meus olhos
Mas existem, eu sei, muitos casais sofrendo, sentindo um inferno. Não estão sós, como eu , mas estão loucos para se separarem. E cada dia, antes se separam. Namorados antes felizes , casados não se entendem mais. Será a vida a dois, também difícil? Eu sei é que é penoso morar só. A não ser quando se recebe quase todo dia, ou pelo menos duas vezes duas vezes por semana, a visita de alguém querido.
Resolvi de repente, hoje, dar um passeio a Santos, amanhã.
Será melhor do que ficar o dia inteiro olhando as paredes ou assistindo uma televisão , sozinha. Por que aluguei um apto? Mas no pensionato eu também não erra feliz.
Vivi mais de 4 anos ansiando por este apartamentinho. Mas o apartamentinho incluía um companheiro e bebes. O apartamentinho sozinho não representava nada.
No dia hoje, penso no Álvaro, e vejo o Álvaro voltar de viajem e continuar com a namorada , e eu continuando o Sábado e Domingo sozinha e desalentada, e sem fé e sem esperança.
Não fui mais a bailes desde que o Álvaro viajou, não tenho esperança de encontrar nenhum homem que me ame. 35 anos, eu tenho, e relembro esse fato outra vez.
Os meus protetores nem se importam comigo.
Estou revoltada , muito revoltada mesmo, não tenho rezado, não tenho tido vontade de rezar. Ninguém escuta minhas preces.
Hoje passarei 4 horas com familiares de passagem por esta cidade. Agora são 9 e pouco da manhã. Aprontar-me-ei agora, e sairei. Comerei algo na cidade e irei para a Rodoviária. Eles chegarão as 15 horas. Embarcarão as 19 e 30 hs.

14 de janeiro/1973 – São Paulo
São 6 e 30 da tarde de Domingo.
Cheguei agora da cidade.
Felizmente passei um Sábado e Domingo movimentados.
Distraí-me um pouco. Ontem mais: fui ao cinema com minhas irmãs, de passagem por aqui, e conversamos e rimos. Já viajaram e também minha mãe e a ajudante.
Hoje, como planejará, fiz um passeio a Santos.
Mais só fiquei lá meia hora, pois não havia mais passagem para cá e tomei um ônibus extra, por colaboração do motorista e um senhor, coitado, que me cedeu o lugar , vindo de pé.
Cheguei as 15 e pouco e fui ao cinema. Queria mesmo passar o dia fora. Fez-me bem.
Durante a viagem pensei muito no Álvaro. Não sei porque não desisto dele. Ele gosta da namorada. Mas deve Ter alguma simpatia por mim, senão não teria se encontrado várias vezes comigo.
Ás vezes penso em conhecer outros rapazes, mais fiquei receosa de ir a bailes sozinha.
Só fui umas 4 ou 5 vezes. Tenho receio de não encontrar um bom rapaz para me trazer direitinho para casa, e de taxi também tenho receio.
Arrisca-se a vida.
Depois do Álvaro Ter viajado não fui mais em nenhuma festa aqui. Não sei o que fazer.
Estou pensando em estudar Inglês, para fazer amizades e distrair um pouco
Comprei um livro na rodoviária
O título atraiu-me o livro, Falou de São Judas Tadeu, muito milagroso. Atende sempre suas preces. Uma vez, quase sucumbiu , disse.
Talvez eu esteja sendo precipitada, culpando os bons Espíritos, Jesus, Maria Santíssima e até Deus, que não me atendem. Mas não faz muito tempo que eu fiz as rogativas: mais fervorosamente, faz alguns meses.
Aguardei mais um pouco.
Mas não quero desesperar-me.
Não resolve o problema.
Vou ler o livro agora.

19 de Janeiro/1973
estou tão contente e esperançosa hoje! São quase 9 horas da noite.
Acho que é porque está chegando o dia do Álvaro chegar.
A esperança do Álvaro gostar de mim! Como é bom essa esperança!
Tenho pensado tanto nele! Ó meu querido bem! Você me faz tão feliz! Eu quero você para mim! Quero ficar ao seu lado! Compartilhar a sua vida , ser mãe do seus filhos, quero você o pai do meu futuro bebe! Estou com uma alegria e saudade de você, querido! Neste momento não tenho dúvidas, nem temores. Penso no Álvaro e sinto a alegria de te-lo conhecido! Eu quero ser amada por você, meu bem!
Terminou a novela. Vou dormir esperansosa!
Se Deus quizer, realizarei minhas aspirações.

22 de janeiro/1973
Eu saí com um rapaz a semana passada, para não dizer que perdi oportunidade de gostar de outro, pois o Álvaro tem namorada. Conheci esse outro na rua. Mas não aceitei carona, e telefonei mais tarde. Mas não gostei de jeito nenhum.
Fomos num barzinho dançante.
Sentia aversão por ele, mas como ele insistiu , dei dois beijos no rosto dele, forçada. Ele deu-me um beijo na boca, sem eu querer, e senti atι nojo. E ele ainda confessou que era casado. Não gostei de nada dele, nem do seu jeito, nem da sua personalidade.
Veio trazer-me de carro até aqui perto. Dei-lhe a desculpa dele ser casado para não sair mais com ele. Que alívio quando me despedi. Fiquei gostando e querendo mais o Álvaro. Parece um tempo enorme sem vκ-lo!
A semana passada também, um rapas na pensão onde almoço, falou comigo. Ele olhava muito para mim.
Mas sua fisionomia não me agradava. Achava-o com cara de cafageste, de pilantra. Que coisa! Parece que o carater muitas vezes se espelha no rosto, na fisionomia. Pois o cretino convidou-me para ir a sua casa, depois do serviço, que o pessoal estava viajando.
Não fui, e hoje fiz que nem o vi lá na pensão.
O Álvaro deve chegar até o dia 31 deste.
Não quero morar sozinha! Quero os meus bebes e o meu companheiro comigo!!!!!
Vou dormir.

24 de janeiro/1973
Esperançosa, hoje. Ontem, trabalho durante o dia atendendo o público. Acham-me atenciosa e educada.
Amanhã: feriado.
Ontem depois do trabalho: cinema.
Queria viajar , faltando na 6Ί feira, mas não vai dar.
Estou tentando Ter mais mais fé. Se eu, imperfeita, quero tudo de bom para os que amo, nosso criador, deve querer nossa felicidade.
Os copos parecendo de cristal estão ali em cima da mesa. Comprei hoje, para o Álvaro e eu bebermos o champanhe que ali está, em cima da mesa ganha no natal (champanhe).
Ele chegará morrendo de saudades da namorada. E de mim?
Eu nunca namorei rapaz de outra namorada. Nem amante que tem namorada. É um amor sofrido.
Sonhei tanto em morar em um apartamentinho, e aqui estou.
Breve, poderei estar com um bebe nos braços.
Talvez depois de amahã o Álvaro já esteja em São Paulo. Mais só telefonarei no dia do aniversário dele, no princípio de fevereiro.
Cheguei a pouco do trabalho.
Tomei banho , comi algo.
Estou escrevendo recostada no sofá. De babydoll. A televisão, deixei sem som. Essa Novela de agora achei meio chata.
Eu não posso continuar assim, todos os anos me esperando: chegar do trabalho e assistir televisão sozinha.
Talvez outras mulheres vivendo sozinhas em apartamentos , tenham mais programas, divirtam-se mais ou tenham amantes mais constantes, visitando-as quase sempre , assíduos.
Eu queria 3 ou 4 crianças alegrando minha vida. Queria aquele reboliço e entusiasmo da infância a minha volta. Queria a espontaneidade e confiança das crianças perto de mim.
Eu queria ser a protetora delas , orientar seu passos, alegrar-lhes os dias. Eu não quero essa vida vazia sem nada por que lutar. Eu não nasci para ser sozinha.
E só tenho 5 anos para Ter os filhos desejados! Quero que seja o Álvaro o pai!
Não procurarei nem esperarei por nenhum outro, não quero conhecer nenhum outro.
Tem que ser o Álvaro!
Mesmo que precise suplicar-lhe.
Eu conheci filhos registrados só pela mãe, filhos de mães solteira, alegres, sem complexos , educados.
Mesmo se o Álvaro não der o sobrenome, registrarei só no meu nome. Desistir da idéia maluca de pagar a um rapaz desconhecido, para registrar como pai o meu bebe, se o Álvaro não quisesse.
Ó meu Deus! Ó meu senhor! Ó meu prazo de fertilidade esta chegando ao fim! Que eu seja mãe, senhor! Tenha pena de mim, Senhor!
Poderei sofrer, mas terei tantas alegrias! Tanto estímulo!
Choro, de repente , e peço chorando: atendei-me senhor!
Eu tenho tanta ternura para dar!
Não sei se vou ao sambão 6Ί feira. Se o Álvaro tiver chegando, ele irá, pois vai toda 6Ί feira. Mas se ele não for, e eu conhecer outro?
Os amigos dele me conhecem, irão lhe contar. E esse outro que conhecerei poderá me decepcionar . Ou terá também namorada, ou arranjará outra logo. Eu já vivi 35 anos. Chega de ficar só na ilusão de aparecer outro. Claro que aparece. Mas eu quero Ter um bebe logo, urgente!
Não posso esperar mais!
Eu preciso provar ao Álvaro que gosto muito dele. Ele precisa confiar em mim.
Estou com um medo dele não querer mais se encontrar comigo! Mais acho que não vai recusar o presente de aniversário, o despertador.
Talvez ele não tenha tido nenhuma relação sexual satisfatória nessas férias , ou até nenhuma, e esteja desejoso de mim. Eu sou muito carinhosa, e o satisfaço plenamente. E ele também é carinhoso e terno como eu gosto.
Acho que ele nunca teve amante. Pode prender-se a mim! Farei tudo para conquista-lo para ele me amar!
Talvez seja bom ele ir no sambão e não me encontrar, para sentir minha falta.
Eu preciso Ter relação sexual com ele no dia 2 de fevereiro, ou melhor , na madrugado do dia 3, que será o 14Ί dia apos o início da mestruação, dia mais provável da ovulação. Dia com mais chance para engravidar. Comprarei um termômetro para saber o dia exato da ovulação , e tentar Ter relação sexual neste dia. O dia 2 e exatamente 6Ί feira o dia mais provável de ver o Álvaro.
Aumentei o som da TV.
Terminou notícias. Agóra .será a novela "A revolta dos Anjos". Amanhã acordarei mais tarde, lavarei roupas.
Ó Álvaro, meu amorzinho, quero você bem preso a mim! Terminarei de assistrir a novela e vou dormir para chegar logo o dia de encontrar com ele!

26 de janeiro/1973
Estou calma agora. 11 e 30 da manhã
Acordei ás 9 horas. Dei bainha na blusa reformada ontem .
O radinho ligado, e os pensamentos sempre trabalhando
A consciência do tempo está sempre presente. Os 35 aos 40 anos voarão como voarão os 30 os 35 anos.
Minha vida não pode continuar igual. Os meus dias, eu não quero repetindo como até agora.
Tomarei uma sopa e irei a cidade , pegar um cinema.
O que eu tenho ido ao cinema não está escrito.
Silencioso o apartamentinho só comigo aqui dentro. É ruin morar só. Não sei como tive coragem. Foi a aspiração incontrolável de ser mãe , a dar-me essa coragem. No pensionato não poderia morar grávida.
Mandar-me-iam embora.
Numa pensão poderia, mas seria mais humilhante, o meu companheiro não poderia dormir comigo, e eu não teria a liberdade como neste apartamentinho, aqui poderei trazer presentes para passarem dias, e quando eu tiver o bebe tenho fogão para preparar-lhe a refeição a qualquer hora, banheiro para dar-lhe banho, e ninguém para perturbar.
Eu não quis esperar um homem que aluga-se apto e me sustenta-se , pois poderia nunca encontrar.
E também não queria arriscar, dependendo de um homem, sem com ele estar casada. Como a minha decisão de ser mãe solteira envolveria a vida de outro entezinho, indefeso, eu só quis e só conto financeiramente comigo.
Amanhã, Sábado passarei sem sair. Estou contente só de pensar que o Álvaro poderá regressar das férias até o dia 28 ou 31. Hoje é 26.
Só telefonarei no dia do aniversário dele. Assim não podera recusar vir buscar o presente. A namorada dele podia tanto gostar de outro e terminar o namora com ele!
Levarei duas colchas para a lavanderia Hoje.
Meio dia agora.
Vou deixar o cabelo crescer.
Vou qualquer dia numa cabeleireira e ver como deixa-lo mais bonitos. Durante vários anos usos curtos. Agora vou usa-los compridos. Enfeita muito mais. E eles são lindos, castanhos. Quero ficar bem bonita para o Álvaro.
Bom, vou alimentar-me e sair . O tempo está instável, cheio de nuvens , parece que choverá.
Minhas aspirações precisam transforma-se em realidade!

Ano de 1977

3 de março/1977 – São Paulo
Olho a minha filhinha de dois anos ali brincando e tento relembrar...
Eu vejo minha filhinha tão linda , robusta, alegre e inteligente, carinhosa esensível, e vejo: realizei a minha grande aspiração: ser mãe.
Eu tento traduzir a felicidade de Ter a minha filhinha, uma adorável menininha .
Relembro o pai da minha filhinha.
Eu não podia imaginar... num dia de carnaval em 1974, do meu apartamentinho olhando para o edifício de frente, distraidamente, enquanto estendia umas roupas no varal, eu conheceria o futuro pai da minha filhinha.
Sua figura agora apagada , e tão amada no passado!
Três meses de amor intenso, diário, eu vivi.
Eu fui feliz.
Mas para ele, eu fui uma mulher sem nenhuma importância para a sua vida. Uma aventura, Eu fui.
Quando eu falei: "estou esperando um bebe", ele desapareceu ,Eu sofri um mês , muito mesmo!
Mas depois só existiu a alegria de estar esperando um bebe, e um bebe de um homem amado e a esperança da volta do homem amado.
Os meses de espera do bebe foram tranqüilos, com muita paz , e um pouco de preocupação em alguns momentos medrosos, medo de perder o bebe.
Nasceu a minha filhinha, e ele ocupa o meu dia inteirinho , desde que nasceu , não dá tempo para pensar em mais nada.
A minha filha me trouxe realmente alegria, e a realização esperados.
É maravilhoso mesmo Ter um filho!
Mas trabalho eu tive.
É trabalhoso, confesso, criar um bebe.
É um trabalho diário , ininterrupto , dias, meses, anos, sem descansar um dia.
Mas é um trabalho compensador.
O dia voa, o tempo é pouco para todas as tarefas na criação de um bebe.
Minha família deu apoio, deu ajuda.
Eu tirei licença sem vencimento do meu emprego público, para cuidar da minha filhinha até ela ficar crescidinha .
Uma coisa muito interessante: desde grávida e depois do nascimento da minha filha até hoje, não sinto falta de um amor, de um companheiro.
Eu vivo para ela desde o seu nascimento, eu não tive mais tempo de lembrar da existência dos homens, eternos causadores de felicidades e sofrimentos.
Eu tive esperança do pai da minha filha voltar, em muitos momentos eu lembrava da sua existência.
Mas eu não sofria.
Não espero mais sua volta.
Tento resumir esse tempo todo passado, desde fevereiro de 1973.
O Álvaro e eu terminamos logo o romance, e eu depois amei outros.
Outros homens vieram dormir ao meu lado no meu apartamentinho.
Amores sempre passageiros.
Eu fiquei grávida da filha , com a idade de 36 anos.
Agora eu acho : a demora era uma provação pela qual era obrigatório passar.
Depois do pai da minha filha , não tive até hoje outro homem.
Mas eu gostei de outro homem na cidade dos meus pais, e digo sinceramente, eu teria casado com ele, eu o aceitaria sem exigir condições .
Mas o relacionamento foi de amizade . que pena!
Ele era novo, 24 anos.
Ele , amizade só, talvez.
Eu apaixonei-me, mais já esqueci.
A idade do pai da minha filha quando nos conhecemos era: 24 anos. Agora é 27 anos.
Ele ainda é solteiro.
Ele trabalhava em escritório e ganhava menos que eu, na época.
Eu soube: ele odiou-me pelo que eu fiz: Ter um filho dele.
O perdão já aconteceu, mas ele não voltará.
E agora, os meus planos são: breve recomeçar a trabalhar.
A minha filha ficará em um maternal ótimo, perto de onde moro.
E agora estou decidida a não amar mais homens jovens.
Só olharei para homens mais velhos.
Afinal, eu já tenho 39 anos.
Agora eu penso na minha filha.
Eu agora estou mais realista.
Estou morando no mesmo apartamentinho.
Eu espero muito melhorar a financeira situação e poder alugar um apto maior, e minha filhinha Ter um quartinho para ela.
O salário que receberei esta quase Cr$3.000,00. E é muito pouco. A minha família continuará colaborando, pois esse salário não dará para as despesas.
Eu fiz um outro concurso para ganhar quase o dobro desse salário. Estou muito esperançosa de passar!
A situação econômica do mundo esta cada vez mais difícil.
As despesas aumentam sempre, sempre , sempre.
E a minha preocupação no momento são as minhas finanças, as desejadíssimas por todos: as notas super duradas.
Eu darei sempre tudo o necessário para a minha filha, se Deus quiser.
O maternal onde ela ficará o dia inteiro para eu continuar trabalhando, é mais de Cr$1.000,00 mensais.
O maternal vai ser muito bom para ela, vai Ter amiguinhas para brincar e atividades úteis e distraidoras.
Eu sinto algo inquietante no ar, a fome ameaçando.
Ganhar sempre mais, é um desafio
Ganhar mais não por ganância, mas por necessidade .
Os rumores. Tudo subindo, subindo, subindo demais.
Os homens continuam me fitando interessados.
Eu não tenho mais medo da velhice.
Em qualquer idade poderia Ter um homem a meu lado. Não tenho mais a menor pressa.
Depois do nascimento da minha filha eu nunca mais tive nem angústia, nem inquietação, eu não senti mais eu, eu só.
Nunca trabalhei tanto também.
Dois anos valendo por cinco.
Agora eu vejo: eu fui sempre tão ingênua! Sentimental! Muito sentimental mesmo, e sou até hoje.
Nas temporadas na casa dos meus pais, eu tive muita irritação.
Confesso: meus pais sofreram a humilhação de Ter uma filha mãe solteira.
Os parentes todos souberam .
Meus pais são muito bons mas tem muito preconceito bem arraigados.
Mas eles adoram a netinha.
Minha mãe deu-me o enxovalzinho do bebe.
Eu tive tensão nervosa 1 ano, na lida diária de alimentar e cuidar da minha filhinha , eu queria o tempo esticado para fazer tudo mais sossegada, mais calmamente.
Uma senhora médium deu-me um passe magnético e curou-me.
Eu fiquei esgotada com o trabalho de mãe .Um grande cansaço físico.
Pouquíssima distração esse tempo todo. Um cinema raramente , correndo.
A minha filha esta muito arteira e teimosa querendo já mostrar independência.
Tenho momentos de berros, eu dando cada berro com ela!
E tapa também. Alguns. Um dia desses eu fui dar um tapa na minha perna para ver se eu estava dando tapas muito fortes, e ardeu!
Coitadinha! Fiquei com um remorso! Não dei mais tapas, estou mais paciente.
Vida de mãe dona de casa é muito atarefada mas é infinitamente melhor uma vida movimentada com mil coisas para fazer e resolver, a uma vida vazia.
Eu acho, eu tiva a vida vazia.
O dia voa voa voa .
Agora eu vejo todos os dias com olhos risonhos.
As experiências continuarão a aparecer nos dias diferentes.
Eu ..... em uma jornada.
Eu e o meu próximo.
Jornada..... a própria palavra jornada dá idéia de uma caminhada longa.
E nessa jornada longa e laboriosa eu vejo: o meu próximo é tão importante para mim !
Os olhos continuarão fitando o planeta e querendo ver além, muito além do planeta.
Os ouvidos continuarão escutando sons terrestres e querendo entender os sons misteriosos do porvir.
O coração continuará querendo descobrir um pouquinho da grande verdade.
A cabeça continuará meditando para descobrir o caminho para a Felicidade eterna.
O criador dá para os filhos as aspirações .
E todas as aspirações de alma serão realizadas na eternidade.
E nossas aspirações serão dadas de presente para todos os filhos do criador.
E ele transformará as aspirações diferentes, sempre aparecendo, em realidades maravilhosas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Lieda Sobrosa
Fim dos cadernos de "MEU DIÁRIO EM UMA GRANDE CIDADE"


(Continua no livro: meu diário de mãe, funcionária pública, Esposa e artista)